Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Da hipocrisia à táctica eleitoral

O Estado da União

Ideias Políticas

2013-06-11 às 06h00

Carlos Almeida

Ricardo Rio apresentou-se como candidato a presidente da Câmara Municipal de Braga. Fê-lo pela terceira vez, mas, ao contrário das duas primeiras, a sessão do último Domingo não contou com a presença dos líderes dos partidos que integram a coligação da direita local. A opção, pelos vistos, foi da sua candidatura, que, num exemplo de puro tacticismo eleitoral, quis pôr de lado as faces mais visíveis da tragédia nacional, nomeadamente a do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e a do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas.

Sendo esta situação apenas mais uma num já extenso inventário de hipocrisias da coligação Juntos por Braga, não deixa de merecer particular atenção, num contexto em que se começa a revelar na candidatura de Ricardo Rio um regime absoluto de tentativa de demarcação das políticas do governo.

Depois de vários meses passados em que o esforço se concentrou na afirmação de que as eleições autárquicas nada teriam a ver com a política nacional, percebendo que a conversa não “pegou”, eis que decidem agora apontar baterias ao governo.

Julgo ter sido o eurodeputado José Manuel Fernandes a abrir esse caminho, também ele eleito numa lista do PSD para o cargo que ocupa no Parlamento Europeu, agora na qualidade de mandatário da candidatura de Rio, quando disse, no seu anúncio como tal, que darão o “máximo para trazer esperança a todos aqueles que a Segurança Social e o Governo porventura se esquece e não está lá”, desferindo novo golpe ao executivo de Passos Coelho no passado Domingo ao declarar que “quando o Governo aumenta os impostos, também aqui os põem no máximo”.

Quem parece ter aderido à moda foi o cabeça de lista da Coligação PSD/CDS/PPM, que transformou a sua antiga declaração de “orgulho em estar colado às políticas do governo” numa postura envergonhada de afastamento.

Ricardo Rio aposta assim numa espécie de purificação política ao dizer, numa entrevista recente, que o governo mereceu “a sua reprovação no caso da reforma administrativa do território e da criação de mega agrupamentos escolares”. Os mais atentos sabem que não foi assim. Deixando de lado algumas palavras de ocasião, a coligação de Rio foi sempre conivente com estas (e outras) medidas do governo do PSD/CDS. Na mesma linha populista lá vai essa mesma coligação lançando “as melhores propostas para Braga”.

Que ninguém mais se preocupe com o seu lugarzinho no céu. Ricardo Rio garante a partir de Outubro o céu na terra. Pelo que se vê e ouve, parece que Braga ficará sujeita a um qualquer regime de excepção em que as políticas do governo de maioria PSD/CDS jamais conseguirão penetrar.

Bem podem declarar amor a todos os bracarenses, particularmente aos “mais frágeis”, podem também garantir que não vão privatizar os serviços públicos, podem ainda prometer a retirada dos parcómetros de muitas ruas da cidade, mas o que não podem é esconder os factos que demonstram precisamente o contrário de tudo isso. Factos como os privilégios que concedem aos grupos económicos e às famílias mais poderosas, de que são exemplos recentes a aquisição da fábrica Confiança e a isenção de IMI à BragaParques e a uma unidade hoteleira, ou ainda as declarações proferidas aquando da privatização da Agere, em que o PSD anunciou como uma das condições para o seu voto favorável “a manutenção, numa primeira fase, da maioria do capital na posse da autarquia (podendo alienar-se até 49% do capital da Agere e/ou de outras empresas municipais)”.

Ricardo Rio, na sua intervenção de Domingo à tarde, terá dito que está hoje melhor preparado para “ser melhor presidente do que seria, se tivesse sido eleito em 2005 ou em 2009”. Assim sendo, o melhor mesmo é perder novamente as eleições deste ano, pois em 2017 ou 2021 achar-se-á, certamente, ainda melhor. Da minha parte, estou disponível para fazer-lhe o favor.

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