Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Da corrupção e do terrorismo

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2015-01-12 às 06h00

Artur Coimbra

1. Nos primeiros dias deste ano, os portugueses foram informados de que, entre as dez palavras a votação no site Infopédia.pt durante o mês de Dezembro, “corrupção” foi a vencedora. Com 25% dos votos de 22 mil portugueses, tornou-se assim a palavra do ano de 2014. O segundo lugar foi para “xurdir” e o terceiro para “selfie”.
É uma evidência que “os vários casos de suspeita de corrupção que foram sendo conhecidos ao longo do ano passado e a consequente atenção dada pelos media, que alimentou debates e conversas, terão influenciado a escolha feita pelos portugueses”, como justificou a editora aquando da divulgação dos resultados.
Na verdade, todos vamos tomando consciência de que a corrupção é o cancro maior deste país, a epidemia que vem alastrando pelos centros do poder e que delapida os recursos financeiros e empobrece drasticamente a população, enquanto a classe política e os seus apaniguados vão engordando as respectivas contas bancárias. E o mais dramático e revoltante é que os responsáveis da corrupção, que claramente prejudicam a economia do país e aviltam todos os portugueses, acabam por sair incólumes e quase em ombros do regabofe, quando se esperaria que passassem uns bons anos na prisão, a expiar os seus abusos.
Basta recuar um pouco até à Expo 98, ou ao Euro 2004, situações em que o erário público foi imensamente delapidado. Ao longo dos últimos anos, os casos de corrupção multiplicaram-se, enquanto os portugueses foram ficando cada vez mais pobres e, ainda por cima, sarcasticamente, acusados de viverem para além das suas possibilidades, como se fossem os cidadãos a gerir os milhões dos ministérios, das regiões autónomas ou das autarquias.
Lembremos a famigerada compra dos submarinos pelo Ministério da Defesa, que comprovou luvas e corrupção, havendo condenados, mas apenas na Alemanha. A nossa justiça é excessivamente magnânima para os poderosos, sem qualquer dúvida, levantando suspeitas que bem gostaríamos de não alimentar. E depois, os celebérrimos escândalos do Banco Português de Negócios, que lesou o Estado em 7 mil milhões de euros, embora as contas das várias fontes não batam certo. E o BPP. E agora o BES, com todas a parafernália de trafulhices e vigarices cujas notícias diariamente nos entram em casa pela comunicação social. E processos mediáticos como a “Face Oculta”, o “Freeport”, a “Operação Furacão” e tantas outras. Para já não falar naquele que é considerado um dos mais ruinosos de todos os negócios públicos, as parcerias público-privadas, designadamente as rodoviárias, em que, sacramentalmente, o lucro está associado aos privados e o risco ao Estado, a todos nós. E ninguém é responsabilizado por contas mal feitas, ninguém paga por coisa nenhuma.
Como lembra certeiramente Paulo de Morais, autor do livro “Da Corrupção à Crise: que fazer?”, ele que é um dos mais encarniçados lutadores pela transparência em Portugal, no nosso país a Administração Pública e a política 'transformaram-se numa central de negócios que favorecem os jogos de corrupção'. 
O especialista denuncia a incapacidade da justiça portuguesa em resolver os casos de corrupção e crimes conexos, quer por falta de meios, de vontade ou de um enquadramento adequado no tratamento desta criminalidade, observando que Portugal não está a conseguir fazer aquilo que outros países fazem, que é recuperar para o Estado os activos financeiros capturados aos arguidos em casos de corrupção. 
Por isso, o sentimento de impunidade campeia por esses centros de poder abaixo, agravado pela execrável promiscuidade entre a alta política e os negócios. O polvo existe, os tentáculos são conhecidos mas a sensação de impotência para lhe fazer face é demasiado desmobilizadora.
E assim, não há futuro para este país; não pode haver futuro, numa situação em que os escassos recursos de que o país dispõe são abarbatados pelos tubarões da finança, dos negócios, da política, das empresas.
Neste país perdido, com um ex-primeiro-ministro preso preventivamente “para servir de exemplo”, no que ninguém acredita, porque há imensa gente mais corrupta e que prejudicou o país em muitíssimo maior grau a gozar da impunidade e alguns da imunidade, não admira que a palavra “corrupção” tenha sido a eleita pelos portugueses que se pronunciaram para a página da Porto Editora.


2. É incontornável não falar do que se passou em França esta semana, na carnificina no jornal satírico “Charlie Hebdo” ou no pequeno mercado, do terror à solta pelas ruas de Paris e do perigo que representam o fanatismo, o radicalismo e o terrorismo para o Ocidente.
Está em causa um fenómeno com múltiplas componentes, é evidente, que vão da política à religiosa e à social.
Está em causa um fenómeno que deve inquietar todos os cidadãos, porque do outro lado (e há um “outro lado”…) há indivíduos, altamente preparados e mentalizados, para quem a vida humana não tem qualquer valor, ao contrário do que acontece no Ocidente. Tanto estão preparados para matar, como para morrer, em nome de princípios intangíveis e recompensatórios no Além…
Está em causa uma ideologia islâmica que, misturando política e religião, quer obrigar o Ocidente e o mundo a vergarem-se à sua forma de encarar as coisas, os valores e os princípios que enformam a matriz civilizacional que tem como base a cultura judaico-cristã.
Está em causa a própria Civilização Ocidental, nos seus esteios ideológicos e na sua prática fundamental, que passa pela liberdade de expressão, pela tolerância, pela igualdade de género, pelo respeito pelos sagrados direitos humanos, pela democracia como sistema político.
Está em causa, enfim, a tentativa de retrocesso à barbárie, à ausência de valores, ao terror sem princípios. A manifestação deste domingo, em Paris, é também a reafirmação de um paradigma civilizacional que importa defender, salvaguardar, preservar e proclamar com toda a força e todo o vigor.
Se todos somos ‘Charlie’, também todos somos integrantes de uma identidade civilizacional de que nos querem obrigar a abdicar, nem que seja à força do terror e da selvajaria.
Isso o Ocidente não pode permitir!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.