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Da carreira para...

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Ideias

2019-04-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Não vai muito longe o tempo em que diariamente ouvíamos a expressão “Estou à espera da carreira que vai para… Barcelos, Guimarães, Gerês, Arcos de Valdevez…”. Trata-se de uma expressão de cariz popular que significa um percurso que liga determinadas localidades.
Apesar da evolução verificada na sociedade e nos transportes, nas últimas décadas, o certo é que ainda hoje ouvimos com frequência esta expressão. Pessoas que se deslocam de autocarro entre localidades dizem que vão na carreira para… algum destino.
O termo carreira está associado fundamentalmente aos autocarros que transportam pessoas para locais mais distantes. Até há poucos anos era frequente vermos os autocarros cheios de passageiros que se deslocavam para os mercados e para as feiras. Eram homens, mas principalmente mulheres que carregavam cestos com legumes, frutas, ovos e até animais domésticos para aí os venderem. Nos autocarros, as conversas eram feitas em voz alta, em tom popular e até brejeiro. A este ruído humano, acrescentava-se o dos animais, principalmente das galinhas, o que transformava estes autocarros num local muito próprio dos minhotos.
Com a modernização dos transportes, verificada nas últimas décadas, os locais de entrada ou saída de passageiros estão espalhados um pouco por toda a região. Contudo, até à chegada do comboio a Braga, o principal local de entrada de passageiros era um lugar situado ao fundo da atual rua da Boavista e que até ao final do século XIX era um dos locais mais imundos e indesejáveis de Braga. Trata-se de um lugar, então chamado de “Carreira”, que era uma autêntica cangosta e de onde partiam os transportes para vários locais do Minho.
Esse lugar, que corresponde à atual rua Irmãos Roby, era até final do século XIX, uma cangosta marcada pela imundice e falta de higiene, local onde eram depositados entulhos e detritos, constituindo uma autêntica lixeira de Braga.
Da então chamada “Carreira” partiam para as mais diferentes localidades do Minho diligências (carroças puxadas por cavalos) que transportavam até nove pessoas. Seguiam para Barcelos, Guimarães, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Chaves ou outras terras, numa viagem que se percorria a uma média de seis quilómetros por hora. Eram viagens desgastantes e muito perigosas, pois os acidentes e os assaltos eram frequentes.
A longevidade das viagens fazia com que os passageiros tivessem que sair bem cedo do local de partida, concentrando-se sempre na Carreira. Daí partiam rumo aos seus destinos, sendo um dos primeiros e mais perigosos locais de passagem a zona da Falperra. Era aí que a maior parte dos assaltos ocorria, sendo considerada uma zona de bandidos.
No jornal “Diário do Minho”, de 18 de abril de 1934, encontramos um texto absolutamente esclarecedor acerca desta situação: “Da «Carreira» partiam altas horas da noite os carros da Carreira (de isso lhe veio o nome) para Ponte de Lima, Guimarãis e não sei se para os Arcos também. Viajar de noite em diligência era, nêsse tempo, empresa arriscada. A Falperra era célebre de bandidos, com êles tiveram que se haver muitas vezes os recoveiros, os viajantes, os feirantes de gado…”.
O receio dos passageiros era de tal forma elevado que quando iniciavam as viagens, muitos deles benziam-se, faziam orações permanentes e alguns até deixavam testamentos, caso alguma fatalidade lhes acontecesse: “De modo que ao partir da mala posta, logo que ao estalido do chicote os machos arrancavam, fazendo guizalhar as coleiras, bem pensados e nédios, os passageiros timoratos benziam-se, encomendavam se mentalmente a Deus, volvendo um implorativo olhar de fé para a lamparina do nicho, que tinha talvez nessas preces mudas a sua piedosa razão de existir” (id.).
Outra das dificuldades que os passageiros encontravam era a quase completa escuridão do percurso, apenas iluminado pelos ténues candeeiros a petróleo que os cocheiros traziam nos seus veículos de tração animal. Eles próprios, os cocheiros, sofriam de enorme desgaste, quer físico quer mental. A responsabilidade de conduzir passageiros e mercadorias, por caminhos sinuosos, marcados por terra e por pedras, provocavam-lhe um enorme desgaste, muitas vezes disfarçado pelo álcool, que ingeriam durante a viagem, e que muitas vezes terminava em acidentes graves.
Hoje, como sabemos, tudo está transformado: os transportes são mais confortáveis, seguros e rápidos. Os percursos em terra e em pedra deram origem a linhas de caminhos-de-ferro, estradas e autoestradas. Os veículos públicos são cada vez mais individualizados, destacando-se aqui o mais recente método de viagens, as aplicações nos dispositivos móveis que nos permitem facilmente aceder e requisitar um transporte como a Uber ou Taxify.
Apesar de toda esta evolução, as carreiras de transportes públicos continuam a ser uma caraterística da nossa identidade, como povo e como região. E o termo “Da Carreira para…” Arcos de Valdevez, Barcelos, Guimarães, ou outra localidade, continua a ser um termo bem português, bem minhoto e bem bracarense. Não fosse de Braga, concretamente da Carreira, que saíam os transportes para…

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