Correio do Minho

Braga, sábado

Da campanha aos feriados

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2011-05-30 às 06h00

Artur Coimbra

1. Depois de semanas seguidas dessa mentira chamada “pré-campa-nha”, em que a única mensagem proibida é o apelo expresso ao voto, pelo menos, de forma escrita, eis-nos já em plena última semana da campanha eleitoral, rumo às legislativas antecipadas de 5 de Junho. Com bandeiras, cachecóis, autocolantes, cartazes, comícios, bebícios, caravanas, outdoors, gritaria, demagogia, numa espécie de carnaval tardio com ampla participação das forças partidárias.
E essa “bebedeira das sondagens” diárias de que falava por estes dias Paulo Portas.
Não há dia que passe sem que se denunciem picardias entre os líderes dos principais partidos, sem que apareçam acusações, queixas, críticas, ataques, censuras, justificações. A campanha sobe de tom e baixa de nível, com o aproximar do acto eleitoral.
Como sempre, quem está no poder tudo faz para o conservar, defendendo-o e justificando-o, desculpando-se, enquanto quem vive na área da oposição trabalha para o conquistar, usando de todas as armas que a legalidade eleitoral lhe faculta. Ouvem-se, por estes dias, muita mentira, imensas enormidades, absurdos sem sentido, promessas que todos sabemos serem inconcretizáveis.
É a mascarada no seu esplendor. Os candidatos deslocam-se às instituições, para tomarem contacto dos problemas que estão fartos de conhecer; as feiras enchem-se de bandeiras, de sorrisos, de abraços, de beijinhos. Por estes dias, os comuns cidadãos, potenciais eleitores, são os alvos de todas as campanhas. Os eleitores podem desconhecer os candidatos, mas estes não se importam: distribuem propaganda, prodigalizam simpatia, dão palmadas nas costas, como quem diz esperar pelo voto dos incautos.
Nestes dias, os candidatos, quaisquer que sejam, da esquerda à direita, como por magia, “conhecem” todos os eleitores. Transitoriamente, como é óbvio. Daqui a uns dias, conhecidos os resultados eleitorais, já não haverá ninguém nas feiras, nem nos tempos de antena, nem nas sondagens, nem nas promessas para não cumprir.
Tudo regressará à pacata normalidade!...


2. Não sendo assumidamente grande apaniguado de Sócrates, como os leitores já se aperceberam faz tempo, embora tenha de reconhecer que fez muito de positivo pelo país, também devo afirmar que Passos Coelho não me inspira qualquer confiança. Não entendo que as suas propostas sejam salvíficas para o país; como não me parece que, nas mesmas circunstâncias de Sócrates, sobretudo nestes dois/três últimos anos de acerada crise, teria feito melhor. Absolutamente não. Tem bom discurso, mas muito artificialismo, muito falsete. E um percurso ziguezagueante, que não augura nada de bom, caso venha a ser eleito. Que me perdoem os que acreditam nele.
Não acredito na bondade das privatizações anunciadas nem da generalidade do empresariado lusitano, a que falta, salvo as devidas excepções, cultura cívica, que o le-vem a cumprir os seus deveres económicos perante o Estado, respeito pelos trabalhadores que constroem as suas fortunas, para já não falar da ausência dos mais básicos conhecimentos empresariais e académicos. Um Estado construído sobre estes pressupostos não é fiável.
Como não é fiável um Passos Coelho que, tal como Cavaco há 20 anos e umas nefelibatas acoitadas no PS, há uns meses, propõe, despudoradamente, “colar” os feriados aos fins-de-semana mais próximos.
Ou seja, festejar o 25 de Abril no dia 27 ou no dia 23. Ou a data histórica da proclamação da República no dia 3 de Outubro. Um perfeito despautério e uma falta de respeito pela memória histórica de que se tece a identidade da Nação, que afirmam divinizar. Como se fosse deste modo que se ganhasse competitividade e se aumentasse a produtividade. Estas determinantes não vivem de um ou dois (ou mais) dias de feriados, e das consequentes “pontes”, que não são gratuitas, ao contrário do que muitos supõem, porque quem as usufrui abdica dos correspondentes dias de férias, como se sabe. A competitividade e a produtividade vivem de uma diferente organização das empresas e do sistema económico, como o demonstra o sucesso dos trabalhadores portugueses no estrangeiro.
É claro que a maioria dos empresários aplaude tudo o que cheira a redução de feriados, de férias, de ordenados e de regalias dos trabalhadores. A maioria dos empresários apenas sabe conjugar o verbo “aumentar” em condições bem específicas: o tempo de trabalho, a flexibilidade das leis laborais, se possível a escravatura dos que têm um emprego.
É por estas razões, pelas contradições já evidenciadas, pelo momento grave que o país atravessa, o qual exige o mais profundo conhecimento dos dossiês e a melhor preparação para o exercício dos cargos governativos, que a eventual eleição de Passos Coelho não me inspira qualquer esperança num futuro melhor. Para pior já basta assim!...
Mas como sempre se dirá, e se repetirá no próximo domingo: o povo, eterno juiz e soberano, tem sempre razão!

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