Correio do Minho

Braga, sábado

Cultura, símbolos & fornalhas

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2017-06-24 às 06h00

José Manuel Cruz

Jorge Coelho demitiu-se com a tragédia de Entre-os-Rios: porque é que o Capoulas Santos e a Urbano de Sousa não seguem o exemplo? E a discussão nem está no plano da responsabilidade pessoal: se há culpas a apurar, então não podem ficar nos ministérios, em posição de autoridade, aqueles sobre quem possa impender o ónus, o opróbrio, de semelhante catástrofe.
Um e outra assobiaram para o lado: que o governo até tinha uma reforma a sair do forno; que a demissão era uma cobardia… Mas há quantos anos não anda o Capoulas Santos com a agricultura, a floresta, o mundo rural às costas? Portugal descobriu, nas últimas semanas, que o Governo, que a Nação, estão reféns da REN, da EDP, que o regulador oficial, tudo somado, não regula a ponta de um chavelho. Mais lá para trás, descobriu-se que um homezico de punhos majestáticos mandava e desmandava, querendo pouco saber das vidas que destroçava. E com os eucaliptos: não é a mesma porcaria, igual pulhice? Somos parvos, ou quê?
Mas ele não houve tosco técnico, em decénios, que tivesse dito, a ministros sucessivos, que a coisa assim não marchava? Estão os ministros exonerados de responsabilidades? Vamos discutir o assunto, agora, porque morreram mais de sessenta? E já não tinham morrido vinte? Um que fosse, e prevalecia a condenável aselhice. Se os ministros não chegam a servir os cidadãos: quem servem eles, afinal?
A França elegeu um parlamento com próximo de 60% de abstenção. Grande democracia! O povo podia ir, mas não foi: e despeje-se a culpa no povo, porque o sistema é bom. Um destes dias acordamos com abstenções a la sovietique. Pois não se dizia, na altura, que só os da mama e os totós é que votavam, no faz de conta, porque o povo, os milhões de aprisionados, não se reviam num sistema assente na alienação?
Ah! Já sei! Os franceses não foram votar… porque os russos iam viciar as eleições. Bem-feita para ti, Putin! Chupa, morcão!
Na última crónica passei olhos por um bisegre que implantaram no largo Paulo Orósio. Com uma estátua, enaltecemos personalidades maiores, procuramos retribuir-lhes as marcas que deixaram nas nossas vidas, nas vidas que nos precederam. Mais do que a consagração de um longínquo Octaviano, prestar-se-ia, uma estátua com a sua efigie, à celebração de Braga, ela própria, das suas gentes, da sua história. À falta de um ícone, de um totem, que remetesse para época ainda anterior, aceitaríamos rever-nos simbolicamente no refundador e marco inequívoco da nossa História. Não há insígnia de cacaracá que transmita simbologia poderosa, perdurante; não há personificação engelhada que gere projecção emocional e agregação. Um símbolo tem que ser elaborado pelo melhor, para que gere admiração e participação. Podia continuar com a prédica: valeria a pena?
Ando com ela fisgada desde a semana santa. Símbolos, de novo. Aquele cartaz de um Cristo com carinha melosa de crucifixo a espreitar por uma racha de pano, como se de fora da tenda seguisse as aventuras do Iscariotes com a Madalena. Passando por cima de muita coisa: a semana santa é morte e ressurreição; é expiação pela dor e renascimento; é homem divinizável e deus imaterial; é destino, fatalidade e providência; é o veicular de que tudo faz sentido, até o sofrimento mais atroz. De uma celebração ritualística se gerou um cartaz turístico. Organiza as solenidades, Braga, de modo a produzir os estados de alma enunciados? Não, pois não? A semana santa parece contentar-se com ser um kitsch em que o símbolo não vai ao encontro daquilo que deveria enaltecer misteriosamente. Mas lá sabe, quem assim mexe.
Chamam-me, de uma porta, para que decifre uns dizeres em cirílico. Entro: um nunca mais acabar de aparelhos fotográficos! Até ao dealbar da fotografia, atesta-me o coleccionador. E que funciona, a maior parte. Decifro o que me pede, até escrevinho umas etiquetas de máquinas de fabrico soviético. Exposição que leva mais de um ano. Portas abertas por coração que empresta o espaço. Cultura assente em carolice, cultura que parece não encontrar mimos naqueles que Braga querem capital europeia de uma coisa qualquer. Um dia a porta fecha. Um dia o Luís cansa e põe tudo a patacos, sem força para resistir a um figurão que lhe passe à soleira. Se o Luís se chamasse Berardo…
Cento, estava para ser o nome desta crónica, por ser a centésima que o Correio do Minho me publica. A centésima primeira (?) fica para depois das férias. Desculpem a manta de retalhos, mas, no fundo, é capaz de haver um fio condutor. Eu é que não sei qual é. Descubram, e digam-me.



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