Correio do Minho

Braga,

'Cuidar', por Liliana Pinheiro Gonçalves

Macron - Micron

Conta o Leitor

2012-07-10 às 06h00

Escritor

- Eu cuido; Tu cuidas; Ele cuida…
-Maria - interrompi-a.
Ela olhou-me contente. Agradava-lhe a ideia de fazer uma pausa nos estudos.
-Queres ouvir uma história?
-Sim! - respondeu entusiasmada.
Levantou-se rapidamente e veio sentar-se perto de mim.
- Um dia…
- Não! - interrompeu-me - Tem que começar com era uma vez!
Ri-me.
- Era uma vez - continuei ...
Fiz uma pausa. O sino tocava. Abateu-se sobre mim uma dor no estomago insuportável.

Recomecei.
-Era uma vez uma menina - fiz outra pausa - que se chamava Maria.
Ela sorriu de contentamento.
“… Ela era bonita e inteligente. Uma vez ela e a sua família foram passear. Foram a um sítio muito bonito! Havia uma praia, e uma igreja. Ela estava com fome. Foram a um café…’’
-Como era o café?
Sorri.
- Era bonito.
Ela amuou.

“… Compraram gelados. Saíram…’’
-Estas a contar muito depressa avó! - dizia zangada.
-Não sei contar de outra forma. - desculpei-me.
Ela continuava amuada.

“… A rua era bonita e tinha estátuas. Ela ia de mãos dadas com o seu irmão. Ele era bonito, muito mais velho. Tinha olhos castanhos, como ela, e cabelo aos caracóis. Ele brincava com ela. Mas ele começou a ficar um pouco triste…”
- Porquê? Porquê? - perguntava novamente entusiasmada.
“… A sua irmãzinha não lhe estava a ligar nenhuma. Ela olhava para o lado até que parou….’’
A Maria escutava agora interessada.
“…Ele olhou para lá também, e parou. Tentou fazer com que ela voltasse a andar outra vez, mas nada. Os pais repararam e pararam também. Perguntavam o que se passava, e a menina respondeu: ‘Mãe, aquele pobrezinho, não lhe dás nada?’ . A mãe disse-lhe que não…”
A Maria abria a boca espantada e logo depois meteu as duas mãos a tapa-la.
“…Então a menina correu, correu, e foi sentar-se à beira do pobrezinho…”

A Maria já tinha fechado a boca e abriu-a outra vez. Estava a gostar.
“…Ao longe o irmão preocupado correu para ela. Quando lá chegou, ela e o pobrezinho partilhavam o gelado, e conversavam alegremente. O irmão pegou nela à força e tirou-a de lá. Ela chorava e gritava e conseguiu largar-se e voltou para o pobre. Pouco depois, os pais vieram ter com ela. E obrigados por ela, lá tiveram que dar umas moedas ao pobrezinho. E iam embora. Mas a menina continuava a chorar e a gritar. O pobrezinho tentava acalmá-la. Mas ela gritava: ‘Mãe! Dá-lhe mais! Dá-lhe mais!’

Os pais não queriam mais aquela vergonha no meio da rua, e como não lhe queriam bater, deram a maior nota que tinham na carteira. A menina logo parou de chorar. O pobrezinho queria dar-lhe um beijo mas os pais não deixaram. O irmão continuava estupefacto com tudo o que se estava ali passar, e a irmã voltou a dar-lhe a mão como nada se tivesse passado. Afastaram-se. A Maria acenava ao pobrezinho, e ele, em lágrimas, acenava também. Ela virou-se e abanava alegremente os bracinhos. O irmão continuava sem perceber nada. Olhou para trás, e o pobrezinho, disse-lhe com os lábios: ‘Cuida bem dela’ e apontou para a menina.”

- Ohhh - exclamava, bateu palmas - gostei avó!
Sorri tristemente.
- E ele? Cuidou bem da menina? - perguntou curiosa.
Olhei triste para a foto do meu irmão.
- Cuidou.
O sino voltou a tocar.

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