Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Céu rubro

O elefante elegante e a girafa gira

Ideias

2018-01-21 às 06h00

José Manuel Cruz

Leva dias uma reflexão veiculada por Putin. Que o comunismo seria teria sido um equivalente viável do cristianismo, e o mausoléu de Lenine uma espécie de relicário de veneranda pessoa. Ironizará? Escarnecerá? Constatá-lo-á, quiçá a partir de experiência íntima?

Autojustificação? Frase de lobo com pele de cordeiro? Do assim dito, em alternativa: poderemos nós perguntar-nos se o homo sovieticus constitui uma actualização, um prolongamento, do homo religiosus, tanto como o sapiens uma evolução do erectus? E, em tal caso, teríamos nós abortado a progressão da espécie, deliberadamente, vergando o socialismo com ferocidade farisaica, par daquela que usamos para condenar e supliciar o Bom Messias? Ah, turba, que tanto azedas diante dos mistérios do devir!

Despeço-me do racionalismo, porque nenhuma forma de razão preside ao impulso espiritual. Sentimos Deus como um amor indeclinável, ou não o sentimos de todo. Guiámo-nos por Deus, cegamente, por muito que nenhuma certeza de estômago cheio nos ateste que estaremos em condição recomendável no dia do acerto de contas, na hora em que sejamos chamados a justificar-nos. Aquiescemos perante as vicissitudes, porque esse o desígnio intraçado do Alto. Aspiramos a Deus, individualmente, como inevitável é que, a título colectivo, aspiremos a uma sociedade justa, equitativa, a uma organização humana que não negue oportunidades nem denegue socorro. Neste contexto: por que é que um socialismo-comunismo há de ser uma utopia, um risível conto de fadas para adultos que não se despediram da infância? Acaso a ideia presente de Deus não corresponde a uma pureza anímica que devamos ter por norte e rumo? Acaso uma sociedade fraterna seria malquista do Altíssimo? Se dura e pejada de contratempos é a via da salvação, por que facilidades e isenções de controvérsia haveriam de ser os caminhos da redenção social?

A todo o momento escolhemos queiramo-lo ou não. Tomamos partido por acção ou omissão. Exageramos louvores, deturpamos, calamos recriminações, consoante estejamos inclinados, como quem aclama bíblico Barrabás. Abraçamos um cinismo de quatro estações e entregamo-nos a um opressivo «aqui e agora», como se o Presente fosse o único e exclusivo juiz da Verdade. Afinal, quanto mais não valem as Maldivas que o Paraíso Celeste! Quem pensa em anjos, face a moça polinésia de peito nu, orlado de cinta de flores! Mil perdões para as senhoras, que não me chega o arroubo para lhes propor imagem equivalente.

Desconfiamos de promessas, por todas as vezes que já nos defraudaram. Confundimos a ideia com o idiota de palavra inflamada que abusa da nossa credulidade. E não sabermos nós separar o trigo do joio! E capitularmos nós perante a obrigação de reivindicarmos regime valoroso que descarte palhaços e oportunistas!

Erros clamorosos teriam sido cometidos por bolcheviques e apaniguados. Mortos aos milhões se atribuem a Estaline, lavando o Ocidente democrático das máculas da Alemanha nazi pois não reza a vulgata que os crimes estalinistas redundam do pecado original comunista, enquanto os de Hitler dele o são, unicamente? Quantos judeus ou cristãos novos não sucumbiram à Inquisição? Quantos negros e ameríndios não foram sacrificados a bem da Cruz? E passa-nos pelas entranhas um vómito, como se o cristianismo fosse um creme fora de prazo? Erram os homens, por numinosa que seja a ideia.

Tomara eu viver amanhã. Entretanto, e para que não amargue, cá ficarei com o Messias de Händel, e com o coro do Exército Vermelho. Talvez me salve, aconchegado com Hossanas e Kalinkas.

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