Correio do Minho

Braga,

Crónica do tempo que passa

Está confirmado, vem aí o Natal

Ideias

2016-01-11 às 06h00

Carlos Pires

Estava eu à volta com os escritos relativos a esta crónica - previra uma análise do atual panorama das próximas eleições presidenciais - quando, ao abrir a página da rede social “facebook”, dou de caras com um “post” de uma boa amiga contendo a seguinte frase imputada ao escritor checo, Franz Kafka : 'O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida'.
Parei tudo. Aquela frase resumia um conjunto de cogitações que me tinha absorvido nos últimos dias. Aproveito agora para o questionar a si, caríssimo leitor: não tem a sensação de que o tempo está a passar depressa de mais? Concretizando: não lhe parece que o último Natal chegou subitamente, sem qualquer pré-aviso? Falo-vos do meu caso concreto: lembro-me de iniciarmos Setembro, pós férias de Verão, e, de repente, davam-me conta que na semana seguinte era Natal. Aqueles 4 meses passaram num ápice, num piscar de olhos, não dei pelo tempo passar. Aliás, nos últimos anos já vinha percecionando esse efeito, mas nunca como recentemente sucedera.
Tenho confrontado muita gente que me rodeia com o tema, atento o desconforto que me tem causado. Pretendo apurar se é exclusivo da minha pessoa. Mas parece que não. É comum a muitos outros. Todos reclamam falta de tempo para cumprirem as exigências da sua vida profissional, bem como para as conciliar com a vida pessoal ou familiar.
O bem mais valioso da nossa época passou a ser o tempo. É o bem mais exíguo. E, aplicando as regras mais elementares da teoria económica, nomeadamente a lei da oferta e da procura, quanto mais escasso é o tempo, mais dispendioso é, mais caro nos fica.
Lembro-me de tempos idos. Os dias tinham no mínimo umas 30 horas (alguns chegavam mesmo às 40 horas, se bem me lembro). E não é que eu na altura tivesse menos ocupações do que tenho hoje. Mesmo assim ainda sobrava tempo para simples trivialidades, como leituras, sestas ou “zapping” na TV. Aponto para a passagem do milénio a data em que os dias começaram a encolher (dizem que tem 24 horas… Tenho como certo, contudo, que não serão mais do que 15!) e a vida passou a ser conduzida com o “prego a fundo no acelerador”.
O que se passa então nas sociedades dos dias de hoje, tão cheias de saber e conforto,
mas tão queixosas da falta de tempo?! Será devido às exigências profissionais dos dias de hoje? Talvez. Mas não será alheio a culpas o elevado volume de informações que recebemos diariamente, quer nas relações sociais, no trabalho ou fora dele, quer ainda através dos jornais e da TV, internet (incluindo os e-mails e as redes sociais) ou mesmo pelo telemóvel. Tudo ao mesmo Tempo. Agora.
Hoje, como nunca, desejo que o meu dia tenha algumas horas a mais. Tantos afazeres que não serão cumpridos; tarefas que não serão executadas - leituras obrigatórias, família, amigos, ou pura e simplesmente o estar sem pensar em nada.
Não conseguimos nem podemos parar o tempo. Esvai-se entre os dedos. Mas como podemos ter tempo para fazermos tudo o que desejamos, gostamos e devemos fazer? Bem, parece-me que enquanto não descobrirmos a cura milagrosa, só há uma forma de atuar: aprender a lidar com ele. Há que estabelecer prioridades e reposicionar a ordem natural das coisas - valorizar o imprescindível e verdadeiramente importante: conversar, interagir, sentir, ver, experimentar, e por fim, viver.
O melhor será mesmo seguir a velha receita horaciana, a única forma de combater o poder do tempo, e que se eternizou através da célebre expressão latina “CARPE DIEM”, que significa: “colhe o dia, aproveita o momento”. Afinal, como nos transmite, com maestria o escritor Virgílio Ferreira, in “Aparição”: “O Tempo não passa por mim; é de mim que ele parte”.
E com estas considerações lá se foi o tempo e o espaço que eu tinha para tecer considerações sobre Belém, Nóvoa, Marcelo, o conterrâneo Jorge Sequeira, ou mesmo o Tino de Rans. Mas não me importo. A tal regra das prioridades assim o ditou.

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