Correio do Minho

Braga, sábado

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Cristiano

Mentira social e a mitomania

Cristiano

Ideias

2018-10-08 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

1 Vou lembrar os leitores, os que habitualmente seguem este espaço de opinião, do tema que retratei naquela que foi a minha primeira crónica de 2018. Com o título “Assédios”, e em jeito de retrospetiva dos acontecimentos mais importantes ocorridos no ano findo (2017), eu decidira eleger como o facto mais relevante, com consequências de alteração positiva ao nível dos comportamentos e das interações humanas, o movimento “#MeToo”. Inúmeras mulheres (alguns homens, também), personalidades públicas, e em diversas áreas – do cinema à moda, passando pela política, mas também pelo desporto -, e um pouco por todo o mundo, denunciaram situações concretas de abuso sexual de que foram alvo, identificando o agressor.
A parte positiva deste movimento, acreditei, residira pois na alteração de cultura instalada. Uma cultura que, até aqui, assentara na ideia de que este tipo de agressão é uma “brincadeira”, a ser tolerada. Culpa dos predadores, mas, como eu referi, também nossa, porque todos fomos cúmplices desta cultura nojenta que dá a quem tem poder o direito de abusar de quem não o tem.
É óbvio que corremos o risco do exagero de reações. Porque nem tudo pode ser considerado assédio sexual, censurável. Porque pode haver conivência das mulheres em causa, sabedoras de resto, em determinados contextos, de que estão a envolver-se num jogo sexual, que de resto alimentam. Ainda, aproveitando parte da argumentação do movimento contrário ao movimento #MeToo, e que foi liderado pela atriz francesa Catherine Deneuve, há o chamado “flirt” ou “galanteio” que não pode ser considerado agressão sexual. E há a ação consciente e voluntária de mulheres, às quais não reconheço o direito de virem, depois, apresentar lamurias ou queixumes, tendo em conta o contexto, o conhecimento prévio que tinham de tudo.
Ao invés, e distintamente, há que censurar os comportamentos daqueles, homens ou mulheres, que aproveitam o poder e o dinheiro que têm para exercerem liberdades sexuais, mais ou menos explícitas, perante os/as mais dependentes. E essa censura existe, quanto a mim, mesmo que aparentemente as vítimas aparentemente anuam ou acordem, porque a situação de dependência em que estão investidos assim os impele a fazer.

2 Sou fã de Cristiano Ronaldo, o português que é somente o melhor futebolista de todos os tempos. Um homem com valores, amigo da sua família, um benfeitor, solidário com os mais necessitados.
Vivo pois tempos de especial angústia e perplexidade, face ao escândalo sexual em que vejo envolvido quem eu tanto admiro. Um escândalo que já fez Cristiano perder patrocínios e que ameaça tornar-se numa guerra judicial com consequências imprevisíveis (de notar que na América de Trump, o país onde alegadamente terão ocorrido os factos imputados ao nosso CR, e sem qualquer menosprezo, o sistema judiciário rege-se por normas bem diversas das nossas).
O assunto, diria, deve ser tratado com a isenção e seriedade que o tema merece. A justiça deveria investigar, de forma responsável e isenta, sabendo nós que só existem duas testemunhas com conhecimento direto dos factos: os protagonistas, Cristiano e a americana Kathryn, e que defendem posições antagónicas. Na dúvida, dever-se-ia absolver. Mas o que parece tão simples, desengane-se o leitor, nem sempre corresponde ao que a Justiça dita. Digo-o por experiência, na qualidade de advogado, tendo em conta a minha já vasta experiência.
No meu íntimo até posso acreditar que se trata de um aproveitamento económico da alegada vítima e que, num futuro próximo, todo este pesadelo se desvanecerá com a entrega de um cheque bem recheado (de quantia bastante superior àquela que Ronaldo terá pago no passado, à mesma mulher, em troca de um acordo de confidencialidade). Mas essa é a vontade de alguém que não quer ver cair um ídolo. E este não pode ser o princípio que deve prevalecer, por muito que nos custe ou por muito que a nossa sensibilidade possa apontar, à partida, um veredicto. Cristiano não merece ser condenado por ser a figura de reputada notoriedade que é, mas da mesma forma, afirmo, Cristiano não pode ser inocentado apenas por ser quem é. Misturar as situações é injusto e perigoso.

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