Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Crise, sempre a crise

Pecado Original

Escreve quem sabe

2011-10-29 às 06h00

Fernando Viana

A crise que parece ter vindo para ficar (como o slogan que uma conhecida marca de automóveis utilizava nos anos 80), tem vindo a trazer para a ordem do dia as fragilidades e contradições do nosso sistema político, económico e social.

Em Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas derrubou o regime de Marcelo Caetano, um dos últimos regimes autoritários da Europa Ocidental, acabando também com o último império colonial europeu em África. A revolução encontrou um país desejoso de mudança, existindo todas as condições para iniciar um processo de desenvolvimento que guindasse o país ao patamar das democracias europeias então envolvidas no processo da integração comunitária.

É evidente que nem tudo correu mal ao longo dos últimos 37 anos. O país registou um crescimento económico assinalável; o nível educacional da população aumentou; a taxa de mortalidade infantil é das mais baixas do Mundo; foram erguidas infra-estruturas importantes que nos colocam no lote dos países mais desenvolvidos; aderimos à CEE (hoje União Europeia), o que, só por si, constituiu uma oportunidade única para injectar milhões de euros de fundos vários destinados a desenvolver o país.

Por outro lado, verificamos que o país está envelhecido, descrente de si e das suas possibilidades, subsistindo grandes desigualdades e, pior que tudo, com pouca esperança em melhores dias.

Mais grave que isso são os sentimentos que insidiosamente se vão instalando na nossa sociedade de que os políticos mais do que governar, governam-se, ou de uma sociedade dividida entre funcionários públicos e sector privado.

Na verdade, e relativamente a este último aspecto, no pós 25 de Abril as coisas eram relativamente simples. Quem procurasse emprego sabia que se fosse para o público teria maior estabilidade de emprego mas salários relativamente mais baixos que no privado, em que não existia essa estabilidade, mas os rendimentos dependiam do mérito de cada um e da riqueza do sector em que se trabalhasse, sendo certo que poderiam ser superiores aos auferidos no sector público. Ao longo destes anos, por várias razões, a que não serão alheias a força dos sindicatos da função pública e a fraqueza dos governantes, parece que as vantagens foram todas colocadas num dos pratos da balança e os deméritos estão no outro, chegando ao ponto de se ler nas parangonas dos jornais que um só médico do Serviço Nacional de Saúde em 2009 teria recebido qualquer coisa como 750.000 euros!

Do meu ponto de vista, poucas, muito poucas razões, justificam que hoje em dia existam em Portugal dois corpos de trabalhadores que se regem por regras completamente diferentes, de que resultam profundas iniquidades e que são fracturantes da sociedade.

As injustiças do nosso sistema político, económico e social são sublimadas num período como este, como que a dar razão ao velho adágio popular de que “casa em que não há pão, muitos ralham e poucos têm razão.”

A crise pode constituir uma oportunidade única para eliminar desigualdades e injustiças. Para isso porém, é necessário que se faça uma discussão séria, sem interferência de lobbies corporativos, em que a única preocupação seja o bem comum e a sobrevivência da unidade do país. Sim, eu sei que muitos ao lerem estas palavras plenas de boas intenções pensarão que sou ingénuo. Tenho porém a firme convicção de que se não for feita esta reforma hoje, ela será inevitavelmente feita amanhã, mas porventura em piores condições e eventualmente sob a forma de uma revolução, talvez menos suave que o foi a “revolução dos cravos.”

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