Correio do Minho

Braga, terça-feira

Crise Mundial: ricos cada vez mais ricos e aumento da pobreza!

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2014-03-15 às 06h00

António Ferraz

A revista norte americana Forbes divulgou recentemente a sua lista dos mais ricos do mundo em 2014. Analisando-a será de realçar o facto de apesar da crise global haver mais ricos e os que já eram ricos terem ficado ainda mais ricos.

Pelo contrário, as estatísticas oficiais apontam para o aumento da pobreza no mundo. Os 1645 multimilionários mundiais listados agregam uma fortuna avaliada em 6,4 biliões de dólares (5,4 biliões em 2013). Os Estados Unidos lideram a lista, com 492 multimilionários, seguidos pela China (492) e Rússia (111). O empresário americano Bill Gates, cofundador da Microsoft retornou ao lugar cimeiro dos mais ricos mundialmente (76 mil milhões de dólares) destronando o anterior líder o empresário mexicano Carlos Slim ligado aos negócios do mundo da comunicação social.

A crise global parece de forma paradoxal a reforçar as desigualdades sociais no mundo.
Portugal segue a tendência mundial havendo cada vez mais ricos e os antigos ricos viram aumentar as suas fortunas, pese embora, o contexto de forte crise, de excessiva austeridade e de empobrecimento crescente da maioria das famílias portuguesas em que vivemos!

Américo Amorim proprietário da Corticeira Amorim e maior acionista da Galp Energia apresenta a maior fortuna no País, subindo 46 posições no ranking dos mais ricos mundiais situando-se agora na 267ª posição com uma fortuna de 5,31 mil milhões de dólares. Embora descendo para a 609ª posição, Alexandre Soares dos Santos (do grupo Jerónimo Martins) mantém o 2º lugar dos mais ricos no mundo com uma fortuna de 2,8 mil milhões de dólares. Em 3º lugar, está Belmiro de Azevedo (Grupo Sonae) que teve uma subida espetacular de 337 posições no citado ranking situando-se agora na 687ª posição com uma fortuna de 2,5 mil milhões de dólares.

É aceitável esta cada vez maior disparidade social? A resposta em minha opinião é claramente não. Seguem, a propósito, algumas narrativas refletivas sobre o assunto:

1.Para os trabalhadores (em geral), a tendência atual é para a degradação das suas condições de vida e para o aumento da pobreza. A desigualdade social em Portugal que é uma das mais elevadas na União Europeia não tem deixado de parar, fruto, em grande medida, da desregulamentação do mercado do trabalho, da desresponsabilização económica e social do estado, da maior facilidade de despedimento dos trabalhadores, dos enormes aumentos de impostos, dos cortes de salários e pensões, da redução dos apoios sociais, da existência de níveis inaceitáveis de desemprego, etc.

2.Pelo contrário, para os mais ricos a vida parece não correr nada mal. São normalmente empresários em sectores altamente lucrativos, por contraditório que seja, em tempos de crise, especificamente, o sector da grande distribuição (as grandes superfícies comerciais) e o sector da energia (os combustíveis são a parcela maior do aumento das exportações portuguesas).

3.Contrariando a lógica da estacionaridade a longo prazo do modo de produção capitalista preconizada no século XIX por Karl Marx e outros autores clássicos como David Ricardo e Stuart Mill, o capitalismo tem mostrado historicamente a sua capacidade de reprodução a longo prazo, pese embora, as crises cíclicas mais ou menos profundas que lhe são inerentes. Para isso, utiliza vários meios conforme os momentos históricos em concreto. Exemplificando, a valorização do trabalho, em especial, pela criação do estado social (Europa nos anos 1950 e 1960), a expansão do comércio internacional, o alargamento dos mercados, a integração económica, a internacionalização das empresas e o aumento do investimento externo.
Quanto ao investimento externo, os “nossos” ricos tem vindo a transferir avultados capitais para novos mercados mais rentáveis (países emergentes e países onde o custo da mão de obra é ainda mais barata que a verificada em Portugal), cite-se o Leste Europeu, a América Latina e a África.

4. Os lucros dos grandes grupos económicos também se acumulam através da fuga aos impostos, quer por mudanças das suas sedes fiscais quer através de transferências para os chamados paraísos fiscais “offshores” (onde as tributações são muito mais favoráveis).

5. O funcionamento sem regras dos mercados financeiros esteve na origem da atual crise global. Porém, esses mesmos mercados continuam a ser uma das maiores fontes de lucros especulativos dos mais ricos com as suas volumosas participações nas bolsas de valores tradicionais e de futuros, nas transações sobre ações, obrigações e título de dívida soberana nos mercados primário e secundário, etc.

Em conclusão, apesar da crise global constata-se que há cada vez mais ricos e os que já eram ricos viram aumentar as suas fortunas enquanto a pobreza aumenta a nível mundial e nacional o que é uma situação profundamente imoral e comprometedora do bom funcionamento da economia e da sociedade a longo prazo.
Haja vontade política de mudança!

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