Correio do Minho

Braga, terça-feira

Crise e emprego

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2010-03-05 às 06h00

Margarida Proença

Em dia de greves, justifica-se que falemos da situação no mercado de trabalho. Ainda a sofrer, directa ou indirectamente, os efeitos desta grave crise mundial, têm sido publicados diversos livros e artigos, incluindo interpretações e previsões sobre o desemprego. Justifica-se obviamente. De acordo com os dados mais recentes da Comissão Europeia, prevê-se que em Abril de 2010, a taxa de desemprego na zona euro seja 11,5%, começando depois disso lentamente a baixar. Na Irlanda, o desemprego poderá atingir os 16% e na Espanha 20,5%.

A França, a Alemanha, a Bélgica, e a Eslováquia estarão acima dos 10%, enquanto Portugal poderá registar 9,8%. Prevê-se ainda, para o mesmo período, um ligeiro aumento nas compensação real dos trabalhadores, superior em Portugal (0,6%) à dos países da zona euro (0,3%). Uma vez que se prevê que a produtividade se mantenha baixa, isto significa que os custos unitários do trabalho poderão aumentar cerca de 0,7%, enquanto que na zona euro poderão cair 1,1%.

Muitos desses estudos procuram comparar o que aconteceu agora com o caso da Grande Depressão, nos anos trinta. É certo que o mundo mudou imenso, que as economias são hoje abertas e logo muito mais vulneráveis, que a tecnologia é substancialmente diferente, que as empresas trabalham em redes, criando e explorando sinergias nos mercados mundiais. É também verdade que actualmente faz cada vez menos sentido falar de exportações ou d e importações como se se tratasse de trocas de produtos finais, uma vez que por todo o lado, cada vez se produz e exporta mais apenas peças ou componentes de produtos, que depois serão montados sabe-se lá onde. Mas ainda assim não se pode pensar que os fundamentos do funcionamento dos mercados se alteraram. Na década de trinta, e a história tem sempre alguma coisa para nos ensinar, foi nos países onde os salários nominais mais lentamente se ajustaram aos preços que a produção industrial diminuiu de forma mais acentuada (Bernanke, 1995).

Ora, o que os dados estatísticos da Comissão Europeia sugerem é que a resposta dos mercados de trabalho à actual crise é explicada pela natureza dos problemas que existiam à altura do choque (Arpaia e Curci, 2010), e portanto é muito heterogénea, e varia também entre sectores e grupos sócio-económicos. Depende ainda da configuração e do funcionamento efectivo das instituições; na Dinamarca, Finlândia ou Holanda, apesar do aumento na taxa de desemprego, manteve-se elevada a probabilidade de encontrar emprego, o que pode porventura estar associado a mecanismos de flexisegurança que colocam maior pressão relativa no emprego do que na obtenção de subsídios.

Para que a competitividade externa da economia portuguesa acresça, o país cresça mais e no final todos vivamos melhor, um risco que corremos é que não se verifique a realocação sectorial de sectores tradicionais ou com níveis de produtividade mais baixos. A correlação entre liderança tecnológica e liderança produtiva é hoje cada vez mais clara; as estratégias das empresas cada vez mais importantes; a qualidade e rapidez do funcionamento das instituições cada vez mais fundamental.

E face a tudo isto, continuam-se a discutir infindavelmente questões menores e opiniões subjectivas , tão válidas como de milhões de outros que perderam o seu emprego por variadas e múltiplas razões, mas que não conseguem aceder às televisões e aos jornais. Nem recebem chorudas indemnizações. Tentam equilibrar as finanças pessoais e procurar emprego. Ou as empresas, que vão trabalhando o melhor que podem e sabem, e precisam de baixos níveis de incerteza na economia, e da definição de políticas públicas adequadas.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

25 Setembro 2018

Traição, dizem eles!

25 Setembro 2018

As receitas do IVA

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.