Correio do Minho

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Criar o futuro

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Ideias

2017-03-22 às 06h00

Margarida Proença

Hamel e Prahlad são dois gurus da gestão, com muito trabalho desenvolvido na área do pensamento estratégico. Num artigo já bem antigo, publicado na Harvard Business Review em 1994, referem que, em média, os gestores de topo gastam menos do que 3% do seu tempo a pensar e a desenvolver uma perspetiva para o futuro , muitas vezes nem isso. No fundo, porque é difícil, com certeza, imaginar o futuro, porque se criam muitas ilusões que custa depois a confrontar, porque é preciso ter conhecimento, imaginação, intuição, porque é preciso envolver as pessoas e debater ideias, ainda que eventualmente pouco plausíveis, sei lá. Mas o futuro cria-se e pode ser previsto, ainda que num contexto de rápida mudança tecnológica, mas também económica, social, cultural e política, pareça por vezes um exercício de pura especulação. Que não é.

Tal como Hamal e Prahlad escreviam, uma vez que a mudança é inevitável, é fundamental então que seja discutida e tida em conta nos processos de decisão de forma consistente e sustentada.
Em finais do século XVIII, um famoso demógrafo e economista inglês, Thomas Malthus, publicou um livro chamado “Ensaio sobre a população” que se tornou, ao tempo, um best seller, digamos assim. Basicamente, olhava para a população, que crescia numa progressão geométrica, e comparava com o aumento na produção de alimentos, que era aritmética; queria isto dizer que não haveria produção suficiente para alimentar todas as pessoas. Só para dar uma ideia, em dois séculos, o crescimento populacional poderia vir a ser 28 vezes maior do que a produção alimentar, o que criaria uma enorme calamidade, onde as pessoas morreriam por inanição; sugeria então uma série de medidas a que chamou de “controlo moral”, e que passavam pela diminuição do número de filhos, pelo controlo da natalidade, pelo aumento da idade média dos casamentos, entre outras.

Malthus não antecipou o progresso tecnológico que tornou possível a mecanização dos campos e um significativo salto em termos de produtividade, mas não antecipou também que as alterações sociais e culturais decorrentes se viriam a ajustar exatamente nesse sentido. No início da década de 30, e no contexto de uma enorme crise económica, Keynes previu que o progresso tecnológico se traduziria num “desemprego tecnológico” generalizado, e outros pensadores célebres foram, a seu tempo, revelando preocupação com a relativa incapacidade de criar empregos suficientes para todos.

O que hoje nos preocupa é novamente o confronto entre máquinas e homens, indiciado agora pela capacidade real da inteligência artificial, da robótica, da automatização substituírem pelo menos determi- nadas ocupações. É óbvio que isto não surgiu do nada; todos nos habituamos aos computadores, aos telemóveis, à internet, ao GPS, aos drones, por aí fora, cada vez mais potentes, capazes de realizar cada vez mais funções e com maior rapidez, aos carros quase capazes de estacionar sozinhos, e gostamos, e queremos cada vez mais. A engenharia genética, as tecnologias reprodutivas, o impacto enorme das técnicas de digitalização da imagem, os robots já pontualmente utilizados em cirurgias, etc, tudo contribuiu de facto para a maior durabilidade da vida humana, ainda que levantando muitos outros problemas.

Desde meados dos anos 90 que o uso dos robots na indústria tem vindo a aumentar; por 2007, haveria talvez já um milhão de robots . Em 2015, a venda de robots aumentou cerca de 15%, atingindo o número mais elevado de sempre (253.748 robots vendidos nesse ano); a indústria foi a maior compradora, destacando-se a eletrónica, a metalúrgica e os plásticos, para além da indústria automóvel. Em 2010, cerca de 47% dos empregos nos EUA poderiam ser computadorizados num prazo de 10 a 20 anos.

Diversas instituições têm vindo a chamar a atenção para as possíveis consequências em termos de emprego e salários, até mesmo fiscais - perda de em- pregos, baixa de salários, menos contribuições. É expectável que os seus efeitos atinjam fundamentalmente indústrias com um grau elevado de automatização, e trabalhadores pouco ou não especializados, ou desempenhando funções de rotina manual, e com níveis educacionais inferiores ao ensino universitário.
As mudanças tecnológicas, inevitáveis, interrelacionam-se com as alterações sociais e culturais. Por isso mesmo, o futuro que espera os nossos netos tem de ser discutido.

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