Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Criar é amor…

O Estado da União

Conta o Leitor

2013-08-28 às 06h00

Leitor

Luna Braga

Eram quase treze horas. Quim dirigiu o táxi, propriedade sua, em direcção a casa, onde como habitualmente, sua mulher Mitó e a empregada que com eles coabitava há bastantes anos, o aguardavam para a tranquila hora do almoço.

Quim colocou o jornal numa antiga cadeira de braços, à entrada da sala de jantar. A sopa quente retemperou-lhe as forças e abriu, aos três, o apetite para o saboroso assado que fumegava na travessa, enquanto conversavam sobre os acontecimentos do dia. Assim decorria, normalmente, a vida deste casal que o matrimónio unira há alguns anos. Mas algo faltava neste lar, fazendo com que Mitó abrigasse em si bastante tristeza, por não se sentir realizada como mulher, pois sabia que jamais seria mãe, devido a uma intervenção cirúrgica a que se submetera. E uma casa sem crianças é como a noite escura, sem estrelas cintilando, ou como se costuma dizer, um canteiro de terra árida sem a beleza de uma flor sequer.

Nesse dia de Abril de 1949, Mitó, como era seu hábito, pegou no jornal, foi folheando, lendo os títulos e ao ver um pequeno anúncio a meio da página, sentiu uma força e esperança inexplicáveis e exclamou em voz alta:
- Quim, já leste o jornal?
- Sim, li. As notícias são sempre as mesmas.
- Mas… nenhuma te chamou a atenção? Olha esta com o título “Unidos na vida e na morte”…
-Ah! Li, mas há sempre notícias semelhantes.
-Mas esta é diferente, Quim! Refere a morte de um casal, este mês, e no último parágrafo diz assim: “Deste casal exemplar que o amor uniu até à morte, restam quatro órfãos, sendo um deles de poucos meses“.
- E o que estás a pensar? Hão-de ter família que cuide deles.
-Podíamos contactar o jornal e o correspondente desta notícia.
-Estás a falar a sério? - Inquiriu Quim atónito.
-Estou! Talvez esteja aqui uma oportunidade de Deus para realizarmos o nosso sonho de sermos pais. É uma criança de poucos meses e certamente com ela seríamos todos felizes.

Quim voltou ao trabalho e quando regressou para o jantar, este decorreu sem que houvesse alguma alusão ao caso. Prestava-se apenas atenção ao noticiário emitido pelo imponente rádio Philips, através do qual já tinham ouvido os relatos da 2ª Guerra Mundial, pela voz do saudoso Fernando Pessa, a partir da BBC em Londres.
Chegada a hora de dormir, todos foram descansar. No dia seguinte, à hora do almoço, Mitó que mal dormira, perguntou:
-Quim, já pensaste no assunto de ontem?
-Se é esse o teu desejo, estou de acordo.

Mitó abraçou o marido e beijou-o com toda a ternura.
O contacto foi feito e do correspondente do jornal chegou a primeira carta informando que a família vivia sem recursos, numa pequenina aldeia do nordeste duriense e a criança era uma menina de 21 meses.
Inicialmente havia sido nomeado seu tutor o seu padrinho e tio paterno que concordou em entregar a garota ao casal, na esperança de a subtrair à vida de miséria que a aguardaria e foi vivida pelos dois irmãos e uma irmã muito mais velhos.
Indicado o itinerário, eis Quim e Mitó a caminho da residência da criança. Foi um encontro comovente. Mitó viu estenderem-se para si os bracitos da garota que não chorou e se agarrou ao boneco de borracha que chiava nas suas mãos. Com toda a emoção, Mitó exclamou:
-Minha querida filha!

Além da roupinha e sapatos, seguiu também uma banheirinha onde Mitó deu à menina um gostoso banho quentinho
Porém, como os pés eram gordinhos, os sapatinhos não serviram e na viagem de regresso compraram-lhe umas botinhas brancas e Lis, ao ver-se calçada bateu palmas de satisfação.
Por então não haver adopção em Portugal, o Tribunal de Menores concedeu a Quim e Mitó a tutoria plena, tendo estes feito testamento de um para o outro, indicando como herdeira, à sua morte, a pequena Lis que foi crescendo com fortes semelhanças físicas com os pais adoptivos.

Circunstâncias da vida levaram esta pequena família para Luanda, onde Lis, de acordo com as possibilidades económicas, apenas terminou o Curso Geral dos Liceus, uma vez que, de uma vivência abastada passaram a uma situação económica mais débil. Apesar de tudo, Lis teve uma infância muito feliz e, já com dezanove anos, obteve um emprego na Função Pública e pôde completar, com o seu vencimento, o Curso Complementar Liceal, ou seja, o actual 11.º ano.
Em três anos sofreu Lis, a morte de seus pais e a vivência numa Luanda massacrada pelos tiroteios e violência do verão de 1975. Foi o período mais difícil da sua vida e deixou-se então abater psicologicamente.

Regressada a Portugal que deixara aos 11 anos, Lis agora com 28, conheceu a sua família biológica e então tornou-se-lhe mais intensa a saudade dos pais que tanto a estimaram e de quem sempre cuidou até à morte dos mesmos. Viveu em Lisboa algum tempo mas durante uma visita à bonita cidade de Braga, deixou-se encantar pelo fascínio verdejante desta cidade e pediu transferência para um serviço pertencente ao Ministério de que era funcionária.

Entretanto, um novo contratempo lhe está reservado: a morte de seu marido, com quem casara aos 45 anos. Vê também deteriorar-se a sua saúde, sendo agora portadora de uma prótese total da anca esquerda, além de problemas de coração que a obrigam a uma vigilância vitalícia no hospital.

Mas, apesar de tudo, nada a impediu que reflorescesse o seu antigo sonho dos estudos, e vai agora frequentar o 2º ano da licenciatura em História. Estimada e acarinhada pelos professores, mantem uma estreita e sã camaradagem com os colegas. É que a Lis continua a ter dentro de si uma alma de criança, de adolescente, que retribui a todos a estima e consideração que lhe dedicam.

Às vezes há momentos de desânimo, mas Lis sempre se recupera entoando um Hino à Vida, cantando fados que seus pais apreciavam ouvir nos saudosos serões das quentes noites de Luanda, à frescura das trepadeiras de Jasmim que cobriam a varanda, derramando o seu delicioso perfume.

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