Correio do Minho

Braga,

Crianças, jovens e redes sociais

Escrever e falar bem Português: Um item complicado

Voz às Escolas

2016-09-08 às 06h00

José Augusto

Ouso das redes sociais como canal de contacto e interação entre as crianças e jovens em idade escolar é, entre nós, generalizado. O acesso está facilitado por telemóveis e outros dispositivos portáteis distribuídos a eito, frequentemente, sem qualquer critério de adequação ou de ajustamento às necessidades reais das crianças e dos jovens. Por outro lado, o uso das redes sociais pelas crianças e jovens em idade escolar ocorre, em regra, sem qualquer supervisão parental, mesmo quando acontece em casa e com os pais presentes.
O desejo constante de integração e interação com os pares, normal e típico dessas idades, transformou-se numa necessidade imperativa e numa possibilidade permanente. Porém, essas interações adquiriram formas radicalmente distintas das tradicionais - são, agora, interações sem presença física do outro. São, também, na maior parte dos casos, interações sem a presença virtual do outro, isto é, são também interações diferidas no tempo. Ora estas duas características traduzem-se na impossibilidade de observação ou perceção das reações do outro - das suas reações verbais e não-verbais. Este tipo de interação humana está privado da leitura das emoções do destinatário da frase, do comentário, da apreciação, do elogio, da provocação, da crítica ou do insulto. Falta a observação das emoções do outro, da sua alegria ou da sua tristeza, do seu riso ou do seu choro, do medo, da felicidade, enfim, de tudo o que nos caracteriza como humanos. Porém, abunda a multidão que assiste remotamente ao caso. No contexto das redes sociais, as interações entre crianças e jovens, mesmos as mais infelizes e insensíveis, são facilmente amplificadas e frequentemente exponenciadas, ainda antes do destinatário as conhecer.
O autocontrolo e a moderação nas relações com os outros é fortemente induzida pelas suas reações. Sem a sua presença física, tudo se joga na capacidade de antecipar os efeitos do que se diz e do que se faz e na capacidade de se colocar no lugar do outro, na sua sensibilidade e na sua humanidade. Porém, mesmo nas personalidades melhor formadas, essas são capacidades que evoluem associadas à maturidade. É, pois, ingénuo esperar e inútil exigir essas capacidades às crianças e aos jovens em idade escolar. Mesmo entre os mais sensíveis, a interação pessoal na ausência do outro, e frequentemente diferida no tempo, torna impossível corrigir imediatamente o que está a ser mal interpretado, esclarecer os mal-entendidos, dar melhor sentido ao que se disse e ao que se queria dizer. Esse tipo de interação nega, até, a possibilidade de pedir desculpa em tempo útil e antes que o problema ganhe contornos de conflito público no seio dos grupos de pares.
Nas interações pessoais nas redes sociais não há limites físicos nem temporais. A ausência física dos outros não impede a receção da mensagem pelo destinatário, nem o conhecimento dela pelas audiências virtuais. Tal como as coisas boas, também as coisas más, a provocação, o insulto, o comentário agressivo, são perenes. Ficam escritas, registadas, reproduzíveis e capazes de ser difundidas e amplificadas até à exaustão ou até ao esquecimento, sempre provisório. Por outro lado, na mente das crianças e dos jovens, a distância física entre os interlocutores, quando muito representados por meros “avatares”, gera facilmente falsas sensações de segurança e perigosos sentimentos de impunidade.
Porém, entre as crianças e os jovens em idade escolar, nada disto é eterno. Em dias e horas pré-determinados, todos saem do mundo virtual e regressam ao mundo real. O mundo da presença física dos outros, das suas expressões, das suas emoções e das suas reações. No caso destes jovens, esse mundo chama-se escola. Assim, é na escola que vão desaguar todos os confrontos verbais e não-verbais e todos os conflitos físicos; todos os choques de emoções e todos os mal entendidos, frequentemente, já amplificados e exacerbados pelos “inimigos” e pelos “aliados”, quando não por adultos intempestivos arregimentados para as causas inadiáveis do ajuste de contas.
Para muitas crianças e jovens, as escolas são hoje o único ponto de encontro físico com os seus pares. Na ausência de irmãos, na falta de convivência com os vizinhos, na inexistência de participação noutros grupos formais e informais da mesma faixa etária, em dias de aulas, resta a escola, e os seus arredores, como local inevitável e incontornável de regresso ao mundo real, ao mundo físico em que o “nosso inferno são os outros” e nós somos o inferno deles.
As interações nas redes sociais são uma causa crescente dos conflitos entre crianças e jovens em idade escolar. Não me atrevo a apontar culpados e, muito menos, soluções. Creio que não há soluções fáceis e rápidas para o problema da crescente conflitualidade entre crianças e jovens induzida e exacerbada pelas interações no mundo virtual das redes sociais. Porém, entendo mal a surpresa imbecil com os casos mediatizados em que esses fenómenos atingem graus de violência extrema, porque essas são apenas as situações mais fatais, e por isso mais difundidas, de um fenómeno que está à vista de todos.

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