Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Criado... não aceita mau destino

E se falarmos de Suicídio?

Conta o Leitor

2020-08-10 às 06h00

Escritor Escritor

A região do baixo Minho sempre se caracterizou por uma população densa e dispersa, que se ocupava do cultivo das terras, muito divididas, mas totalmente aproveitadas, delas dependia a sobrevivência de muitas famílias, nos meados do seculo passado. Estes trabalhos quase todos de dureza considerável, aliados à criação de gado, ocupavam o agricultor durante todo o ano e a qualquer hora do dia, seguindo-se o ciclo das culturas tradicionais, para os quais, os braços familiares não chegavam sobretudo em tempo de colheitas, essa dificuldade, levaram os agricultores a recorrerem com frequência aos trabalhos de interajuda das povoações.
Havia um espaço da inteira responsabilidade da dona da casa, esfera de ação totalmente feminina, nas limpezas, lavagem da roupa, alimentação da família e animais, bem como todos os afazeres e obrigações relacionados com a maternidade e os trabalhos tais como; fiar, tecer cozer, nos serões das longas noites de inverno.

Foi neste clima de afazeres que o João iniciou a sua vida de criado, aos oito anos na casa de um agricultor, não será necessário dizer que sofreu muito com o desapego da sua família, estávamos nos finais da década cinquenta, nesse tempo não se lutava pelo bem-estar, mas apenas pela sobrevivência. O agricultor tinha filhos pequenos os quais, o João também tinha de cuidar, quando levava o gado para o campo ou monte, levava também um dos filhos do agricultor e a saca da escola, mas raramente tinha tempo para fazer os deveres de casa ou estudar, era à noite à luz da candeia que estudava, antes de rezarem o terço. A escola era de manhã, mas a azáfama da casa não permitia que fosse à escola todos os dias, a professora avisou, que estava em risco a sua passagem para a terceira classe.

A observação da professora levou-o a dizer aos patrões que não podia faltar mais à escola, para não perder o ano, mas de pouco serviu, argumentaram que já sabia o necessário para a vida, que era saber ler. Tinha direito de ir à casa de seus pais ao Domingo ao fim da tarde, e brincava com os seus irmãos como um menino que era, mas nunca ousando falar aos pais, das faltas escolares nem das saudades que tinha da família. Era um menino robusto e desenvolvido para a sua idade, o suficiente para elaborar um plano para deixar aquela casa. Juntou aos poucos a sua pouca roupa meteu-a num saco e preparou a fuga, escondeu o saco com as suas coisas junto ao portal e na hora de cesta, partia direção a casa de seus pais, na dúvida, se não seria obrigado a voltar. Em casa foi bem acolhido e ficou muito feliz por não ser obrigado a voltar, mesmo quando o agricultor foi a sua casa pedir que volta-se. Esta era a sua primeira lição de vida, com oito anos, já tinha sido privado da sua família e do carinho dos seus pais. O João nunca conseguiu retirar esse espinho do peito, que ainda hoje o magoa, era apenas uma criança que necessitava de proteção e afeto.

Voltou a ser bom aluno e depois da quarta classe, aos onze anos voltou a ir servir, por não ter idade para trabalhar, nem haver possibilidade de estudar, devido à falta de meios da sua família, consequência, de uma família numerosa. Mas agora o João era mais crescido, a família de agricultores era uma casa, onde estavam bem vincadas as vivências de uma família tradicional de bons costumes, onde a educação e o respeito eram referências. Com a sua humildade e boa educação, o João depressa conquistou a simpatia e estima que todos tinham por si, sendo considerado como membro daquela família, nesta casa formou o seu carater, aqui lançou os alicerces do seu destino, que muitas vezes contrariou por força das circunstâncias, tornando bom, um mau destino.

Estas são as paginas mais sombrias do seu passado, fazem parte de um capitulo da sua vida, longinco, mas bem presente. Não é comum hoje, ouvir histórias do passado, porque os jovens não querem ouvir, ficam nervosos sem paciência, talvez com medo de perder todas as regalias e privilégios que tem. Mas é com o passado que podemos emendar o presente e preparar um faturo melhor. Esta historia é a historia de muitos meninos e meninas que tiveram o mesmo berço, filhos de um País onde as desigualdades se acentuam cada vez mais e o futuro cada vez mais incerto.
O João fiz o seu caminho como criado até ao primeiro emprego e aos catorze anos, já cotizava para a segurança social, aos dezasseis, trabalhava e estudava à noite, iniciava o trajeto, que o levou a um patamar social de relevo. O João nunca esqueceu as suas modestas origens, a sua vinda à aldeia faz sentido. Aqui as razões de viver, prendem-se ao essencial e aquilo que é indispensável para se ser feliz.

Os nossos políticos homenageiam e condecoram muita gente, muitos de idoneidade e posição social duvidosa, como se tem vindo a revelar, que só tem um mérito, fazer parte do círculo fechado dos privilegiados deste País. Para quando; homenagear e condecorar famílias trabalhadoras e honestas, que viveram pobres, honradamente conseguiram dar uma profissão ou um curso aos seus filhos, são estes que participam na criação de riqueza neste País e não, os que são formados tardiamente a peso de ouro, só porque os pais são muito ricos.

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