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Costa Monteiro

A Martins Sarmento e as Festas Nicolinas em Tempo de Pandemia

Costa Monteiro

Escreve quem sabe

2020-06-10 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Tropecei por estes dias numa entrevista que o jornalista Manuel Costa Monteiro deu à TSF em 2017. Ouvi-lo foi como acariciar parte da minha infância. Uma candura. Dei por mim, com o meu amigo Ruca, a ouvir os relatos da Antena 1 no “campetujo”, lameiro estendido nas fraldas do Larouco. Naqueles largos anos 80, os domingos iniciavam com o ponteiro nas três da tarde. Quentes ou com a névoa do Outono. As vacas e o burro eram o público que abanava, a espaços, o som sepulcral que saia do Óskar, rádio a pilhas que nos trazia os nomes da bola que vertiam nos cromos da caderneta. Foram tardes onde o futebol era a minha capela sistina. Como se antes de descer à terra tivesse que ser contemplado. Tinha o brilho e a cor dos deuses. Vestia-se de nuvem saído das vozes, entre outras, de Óscar Coelho, António Pedro, Fernando Maciel, Alves dos Santos, Costa Martins, Ribeiro Cristóvão e daquele que para mim era e é o maior – Costa Monteiro.

No ano que fez 50 anos de carreira, tive a bênção de o conhecer pessoalmente. Aconteceu na data de maior glória desportiva do meu concelho. Porque sabia que ia acontecer, vivi o dia em ânsia. Por muito que visse, por muito que idealizasse, sabia que o meu sorriso maior iria abrir-se no momento que sentisse o traço do vulto. Subi as escadas da bancada do Estádio Dr. Diogo Alves Vaz Pereira como se fosse tocar na tocha olímpica. Consegui dizer-lhe um pouco do muito que tenho dentro de mim. Naquele momento, naquele instante, obtive o golo, sem a mão de Deus, no Campeonato do Mundo de 1986. Abraçar e da forma como fui abraçado e ouvir o que ouvi é a prova que o crivo da ilusão não tem tempo. Existiu porque a alma é ampla. Soube parar, olhar e acreditar. Foi grande. É mais, muito mais, que o Maldini de João Ricardo Pateiro, desassombradamente mais que o André Almeida como ele próprio se define. Para mim, é o Deus na arte de narrar, de soletrar, de tricotar, de reinventar, de visualizar o que não se vê. O nome que me faz voar quando o oiço. Que me levita quando vejo a bola a rolar. É o meu alibi para pegar em qualquer conversa. Desse dia, guardo palavras e uma nesga de silêncio. O lustro está numa foto que, religiosamente, conservo.

O homem que viu Pavão tombar em campo no dia que Cubillas era anunciado no Porto, é o mesmo que disse adeus ao relato em outubro de 1985. O pé canhão de Carlos Manuel carimbou a última vénia. Um alor que cumpriu a sina do “bom gigante”. Um tiro em vólei que me levou para o meu primeiro e incomparável Mundial.
De lá para cá, o comentário entrou em órbita. Escutá-lo é bater à porta da escola. Sentarmo-nos e deixarmo-nos levar. Não há nada que falte. Há locução, reportagem, noticia, coordenação, realização e um embrião de relato parido no Estádio do Mar.

Ainda não há contas para fazer. Não as quero. Se um dia destes ler o que aqui verti, quero que saiba que também gosto de estar sob pressão. Ter na pele um fio de navalha permanente. Lutei para que as brancas da rádio fossem poucas. Desassosseguei-me em dias de penumbra. Sorri pelo deslumbre do melhor som. Hoje conto histórias. As que contam e as que devem ser contadas. Finto uma ou outra, sem a ludibriar, na esperança da bancada aplaudir. Porém, não me peça, nunca me peça, para lhe dizer que o tempo é para parar. Sabe porquê? Porque os Deuses não moram aqui.

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