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Costa e os ratos

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Costa e os ratos

Ideias

2019-12-13 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Énatural que entre os socialistas haja quem ache o IVA da luz um abuso. Mas, como são todos Centeno, a coisa fica difícil. Paralelamente, constata-se que o aperto das oposições maioritárias, das propensas a coligações negativas, não abranda. De régua e esquadro, disposto a arriscada triangulação da elipse, Costa saiu-se com expediente inédito – o IVA será variável, consoante o perfil de consumo. Pronto, e assim se contentará Centeno e calará Almeno. Quer dizer, é uma ideia, ainda, a que os amigos de Bruxelas terão que apor um nihil obstat, e o mais certo é que o despacho seja desfavorável, em virtude daquelas contas que eles fazem com muita ciência, ao encontro dos nossos calotes, apuros no rescaldo dos quais o entalado é o do costume.
Mas vá que os homens dão o aval: como é que Costa se arranja para estabelecer a linha de fronteira entre um consumo consciencioso, amigo do ambiente, patriótico no limite, e uma utilização perdulária de um bem público, crime venial expurgável com taxa disciplinadora em duodécimos? Com quantas variáveis espera o senhor Costa compor a equação da utilização eficiente do fluxo eléctrico? Cheira-me que este é um dos tais casos em que a montanha há de parir um rato… de corda.
Parece que há para cima de oito milhares de efectivos na calha, isto só pelas previsões tremidas do ministério da senhora Temido. Será que os candidatos irão ser sujeitos ao famigerado teste de aptidão psicológica de qualquer coisa, parido para descarregar na Viela do Ninguém Lá Vai as contratações de assistentes operacionais para as escolas?
É desta que arrumamos a gloriosa corporação militar, a quem tanto devemos, de Afonso Henriques a Spínola. Chega de paradas de passo escangalhado, de blindados que teriam sido enxovalhados nos alvores da aventura hitleriana, de submarinos que nem para ir do Alfeite a Cacilhas. Chega de oficiais de latão, órfãos de praças dedicados: dizem-nos que os magalas desaparecem dos quarteis, mais rapidamente que sucata de paióis. Mas ficariam como, pergunta-se um senhor de patente incógnita aos microfones, se o pré bate pelo ordenado mínimo, se uma cadeia de supermercados paga mais?
Não quero cair em detalhe e exaustividade que multiplique o que um par de exemplos elucida: não há funcionários, não há orçamento, não há serviços. O que há é retórica, e a dos socialistas é de boa cepa. Com um governo que tudo sabe, tudo explica e tudo prevê, eu fico com ideia de que surfamos uma daquelas ondas da Nazaré.
No mínimo, dá-me vontade de olhar por cima do ombro, pela crista da vaga, para uns noruegueses desenxabidos, que se acham os maiores, mas que nem para as solas dos nossos sapatos. Aqui-del-rei que não há quem assente praça pelo salário mínimo! Mas quantos portugueses vivem esse calvário, mais os apertos de come e cala das centrais de trabalho temporário, mais as rendas de casa pela hora da morte, mais as energias pagas em linha com a Europa, quando os rendimentos do trabalho o não são.
Poça! É preciso ser santo.
Portugal é uma amálgama informe, distante de tudo o que faça sentido. Parecemos filhos de um mundo acabado de criar, um mundo de zig-zagues e incoerências, de arestas por limar. Reformas? Nem vê-las! Racionalização de procedimentos?
Mas o que é isso, bom deus! Vivemos sob o signo do “não toques, que estragas”, com aquela ideia de que “isto sempre foi assim, e já cá andamos há mais tempo do que os outros”. Um destes dias temos que dizer que não chega.
Já não vamos lá de ratos, de coelhos tirados da cartola. A política, ou é uma arte positiva, ou é lixo irreciclável.

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