Correio do Minho

Braga, sábado

Corte à francesa

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2017-02-26 às 06h00

José Manuel Cruz

É contraintuitivo esperar o pior, porque tal só pode significar que o erro não previne o erro, que a asneira não se envergonha nem conhece arrependimento, menos ainda regeneração. Venha em meu socorro robusto sociólogo, santo ou cientista que por ‘A + B’ me demonstre que as vidas comuns - de indivíduos e estados - conhecem florescimento que a figuras tristes e rezingonas apenas escapa, e procurarei, eu, Jordão em que me banhe, para ressurgir homem novo, pois se meu exclusivo o defeito. Esperarei a boa-nova, pacientemente.

Deixem que me esqueça da américa trumptiforme, que me concentre na nação do Assurancetourix. Vai a França a votos. Fragmentos do que por lá se passa cintilam efemeramente no espaço comunicacional português. Ouço uma que outra coisa, mas dentro do fraquinho - as repetições do costume sobre uma Le Pen levada do mafarrico; as inconfidências sacrílegas do czar das trevas sobre vida apaneleirada de frenético Macron, insídias de baixo custo, mas de letalidade nuclear, se com elas putina pessoa ameaça subjugar uma europazinha incapaz de suster o vírus mutante da peste eslava.

Dizem, os comentadores da primeira divisão, que já não há jornalismo, que já não há comentário independente, que já não há ensaio esclarecedor. Cai, a Europa, porque não acorda, por não haver quem a acorde. Constatações compungidas de quem se crê vivendo em asséptica redoma, de quem não se crê parte de ordeira zombização. Pobre de ti, Ocidente, que vives uma devastação comparável às razias de Átila e Odoacro.

Geringoncemos! Portugal geringonçou e, por reversão do papel de farol, é um Hamon atotózado que vem beber do fino. Não será mau moço, mas não está calhado para o papel. Impôs-se aos demais candidatos em primárias de trazer por casa. Bateu um Valls derrotado à partida, e outros cinco que apareceram para mostrar narinas. Comentava-se em França, que as primárias do Partido Socialista não serviriam a designar candidato ganhador ao escrutínio presidencial, antes a que ficasse definido quem herdaria o partido, para preparar, digamos 2022.

Desagua candidato, Hamon, num poscénio tomado à esquerda por Mélenchon, Jadot e por um tal de Macron. Falciforme esquerdista, esse Macron, produto de bioengenharia dos laboratórios Rotschild, plantado conselheiro de um Hollande papa-queijos, recadeiro catapultado a ministro. Liberalzeco como por cá topamos alguns.

Hamon é o ‘frondeur’ que um PS contricto escolhe para derrotar o outrora adubado e incensado Macron. Hamon pode fazê-lo, até pode posicionar o PS para participar na justa final pela eleição, desde que se entenda com Mélenchon. Com Jadot é canja. Com Mélenchon - o caso muda de figura. O que Mélenchon quer, o que a França merece, Hamon não lhe dará.

A credibilidade de Hamon esgota-se nas paredes da sede socialista. Aos ombros de um partido com aspirações maioritárias, tem, Hamon, uma cota de eleitorado similar à de um Mélenchon que corre por fora. Ganharia, o PS francês, se abdicasse nas presidenciais em favor de Mélenchon, recebendo em troca um apoio para as legislativas imediatas, das quais, bem correndo, com larga união das esquerdas, poderia sair Hamon primeiro-ministro.

A Le Pen, que todos almejam erradicar, tem jeitos de sair à frente na primeira volta, e rondar os 45% na segunda, contra Fillon ou Macron. Mélenchon não passa à segunda. Hamon, tampouco. Desembarcando na segunda volta, cheira-me que Mélenchon derrotaria a Le Pen. Mas isso sou eu, que tenho parte com o oculto.
Foi pena que o Hamon não tivesse vindo geringonçar comigo. Pior para ele. Talvez, um dos socialistas que me leia - um que haja - lhe faça chegar o oráculo. Se preciso for, eu faço-lhes um boneco a crayon et gouache.

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