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Contra o esquecimento, a lira é sempre lira!

Personalidade e carater

Contra o esquecimento, a lira é sempre lira!

Voz aos Escritores

2020-06-12 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Contra o esquecimento, levanta-se a música da masmorra
sombria e triste.

Renascem as vozes dos músicos, presos nas cordas do talento
de mil partituras por descobrir,
e a lira resiste.

A lira é sempre lira!
Fernanda Santos


Ao longo dos tempos mais difíceis da nossa História, a música tem contribuído de uma forma inequívoca para a solidificação de um espírito de resistência e de contestação, politicamente falando. Foram as chamadas “canções heroicas” que se assumiram, desde logo, como as sementes das futuras canções de intervenção. As suas mensagens, de deliberada esperança num futuro diferente, de escritores como José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, José Afonso ou mais recentemente Manuel Alegre, disseminam-se pela mão de compositores como é o caso de A “heroica” «Acordai» de Lopes Graça:

Acordai /acendei/de almas e de sóis
Este mar sem cais /nem luz de faróis/
Os nossos heróis dormem nos covais/ Acordai!
Tal como Fernando Lopes-Graça, só mediante o veículo da música, através do canto, ela pode viver verdadeiramente e agir a fundo sobre a sensibilidade, estimulando à ação. É o que se pode verificar através de toda a História, nos períodos em que as consciências se acham abaladas e os homens sentem a necessidade de comungar e de se fortalecer num mesmo ideal. É deste modo que Manuel Alegre canta o herói da liberdade dos céus, Humberto Delgado, o Homem sem medo:
De peito para a bala ele corria /
do alto da sua morte ei-lo que vem /
de cada vez que Portugal o chama.

Assim aconteceu em 1958, quando Humberto Delgado simbolizou a esperança de um país livre, unindo multidões em redor da sua mensagem, do seu carisma e da sua coragem: "Que Portugal deixe de ter medo”.
Falamos deste Guerreiro sem medo, tão bem retratado nos seguintes versos de Manuel Alegre, por quem a lira continua a vibrar:
Vivia junto ao risco e junto ao perigo /e onde outros eram sim ele era não /
e onde outros eram cinza ele era chama. / Combatia de frente o inimigo /e os matadores sabiam que viria /porque por si ele nunca deu ninguém /nem tinha sina de morrer na cama. /

A verdade é que Humberto Delgado não tinha sina de morrer na cama. Talvez, por isso, chamaram-lhe terramoto e furacão. Uns apelidaram-no de general-dinamite, outros de cowboy. Ele próprio se retratou como um «Tufão sobre Portugal», mas foi outro o epíteto que ficou para a posteridade e no coração do Povo: Humberto Delgado, o General Sem Medo.
Cheio de entusiasmo, com o apoio popular crescendo em paralelo com a crispação das forças situacionistas da época, encerrou a campanha eleitoral em Chaves, em1958, com o seguinte discurso que viria mais tarde a tornar-se profético:
«Todos nós, cidadãos pacíficos duma candidatura pacífica, queremos pacificamente conquistar a paz. Mas os esbirros do governo, como têm visto, andam a chamar-nos subversivos nos jornais e a tratar-nos na via pública como malfeitores. Ninguém sabe, portanto, minhas senhoras e meus senhores, onde isto pode ir ter. há uma coisa, porém, que quero jurar aqui. Eu estou pronto a morrer pela liberdade!»

A partir daquele momento, nada podia ficar como estava. As consciências tinham sido abaladas. Havia vontade, força e sobretudo muita alegria, a alegria e o alento bem patentes nas canções de intervenção que a partir daí haviam de nascer.
Quem não se recorda da forma como “Os vampiros”, de Zeca Afonso, mas também “Trova do vento que passa”, cantada por Adriano Correia de Oliveira e por outros, eram um estandarte erguido em nome da vontade coletiva de mudar conquistando a liberdade e construindo a democracia? O que sinto é que não pode faltar fôlego nas nossas ruas e gentes para que estas canções e memórias produzam o fruto desejado: o da afirmação da liberdade e da democracia, que tenha asas suficientemente fortes para voar e para nos garantir a transformação constante como cidadãos, com direitos e deveres democráticos. Talvez por isso, contra o esquecimento, é que os poetas escutam o vento, enchem-se de embriaguez, luz e riso e, volta e meia, cantam para que nós não deixemos “murchar as flores, perfume de liberdade.”
Assim deixo em aberto a crónica de hoje, com a escritora Aida Araújo Duarte em “Por um ideal” que, em nosso entender, nos interpela, como é seu apanágio literário, a sermos crítico-reflexivos:
De que valem honrarias
pela revolta de Beja
pelo exílio sem sentido
pela força de se opor
ao regime da Nação,
se nem estas flores do povo
apagarão a vergonha
ignomínia, podem crer,
de ter sido assassinado
covardemente, por ser
o grande Humberto Delgado?

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