Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Conto de Autor ou A Fábula do Substantivo que queria ser Verbo

Semana Europeia da Prevenção de Resíduos

Conta o Leitor

2011-08-15 às 06h00

Escritor

Por Kaefe Conrado

Sonhou que sabia voar e acordou disposto para o sonho.
Por mais que tentassem contradizê-lo, incutir-lhe o juízo, ignorava a todos e afirmava, insistentemente, que sonhara voando por isso poderia voar.
Não, essa não é a história do patrono da aviação, nem de qualquer outro inventor de aeromodelos. É somente a história de um rapaz que queria voar.
Na segunda-feira, após o sonho, acordou pulando. Saltou, saltou e sempre a maçã de Newton a trazer-lhe de volta à terra. Esmerou-se no bater de asas, impulsão basquetiana, mas nada. Inútil.
Pegou de um lençol e fê-lo de capa...
Esta é a história morosa de um rapaz que abusa da paciência em querer voar. A moral da história deixá-la-ei dita bem antes do seu final (ignorando toda a tradição de Esopo e das parábolas cristãs): nunca tentes voar. Todos nós, sensatamente, sabemos que esse rapaz não conseguirá voar. Eu mesmo tentei dizer-lhe isso, mas fica lá a persistir nas suas tentativas como um néscio, numa cena patética. Como se algum dia um substantivo pudesse fazer as vezes de verbo. Imaginemos o planeta borgiano de Tlön (Creio que terá lido Borges, caro leitor). É mais fácil crer-lhe em sua metafísica do que em semelhante paradoxo.
Melhor seria ficarmos com a história de um antigo sábio (grego, indiano, judeu ou muçulmano) que sonhou ser um verbo. E deste verbo surgia todos os outros substantivos que compunham o orbe em que vivemos. Os substantivos eram resultados da benevolência de um verbo que se flexionava consoante o tempo em que habitava. Herética, fica portanto, qualquer tentativa contrária de criar-se verbos a partir de substantivos.
Contudo, mesmo assim, continuou a amestrar as suas tentativas de voo.
Assistiu a documentários da National Geographic, leu revistas e comprou livros na terça-feira.
Na quarta, colou pregas às axilas, pensou em implantes para diminuir-lhe o peso e aumenta-lhe a envergadura.
Na quinta, dissecou aves, brigou com aquela que seria namorada por que esta simplesmente detestava voar.
Na sexta, imitou os sons de um bimotor, comprou aeromodelos, fez anos. A barba estava crescendo, os cabelos também. (Guardada as proporções para uma barba de um rapazito).
No sábado estudou técnicas de pilotagem de aeroplanos e prometeu a si mesmo nunca mais pisar no chão. Andava agora trepado pelos quartos e salas como o menino de Calvino. Já não mais saía de casa.
Recebeu ralhos dos pais, do irmão. Andava com os olhos fundos. Tinha insónia, pois nem em sonhos poderia aceitar a ideia de que tocava com as pernas o solo, e agora nem mais sentar conseguia. A namorada tentou carinhos, chorou, disse que o amava. Nem sono vinha, nem paciência aguentava tamanha obtusidade.
Queria...
Feito uma semana. Não lhes afirmei ao início desta narrativa que ele não voaria? Ninguém pode voar.
Mas mesmo eu, o autor, dizendo que ele não voaria. Que me negaria totalmente a permitir-lhe o voo. Que não gastaria uma linha fresca e em branco sequer com tal aleivosia, ele voou.
Sem asas nem aviões, sem aparelhos, voou.
Voou tão alto que não sei hoje se ele é estrela no céu ou pássaro. Esta não é uma história de ficção, nem me compraz ser confundido como um epígono de Júlio Verne.
E eu que realmente queria que ele não voasse.

Basquetiana - neologismo próprio das idiossincrasias do autor para descrever o fenómeno aterrador e anti-euclidiano dos saltos ou pulos empreendidos por jogadores de basquete.

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