Correio do Minho

Braga, terça-feira

Conspiração assombrada

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2015-07-18 às 06h00

Escritor

Sara Lopes

Na segunda-feira saí de casa a sentir que alguma coisa ia correr mal. Como um agoiro assombrado, este pensamento perseguiu-me o caminho todo até ao aeroporto. Acho que me esqueci de alguma coisa importante em casa. Mas o que seria? Agora também já não importa. Roma. Era esse o meu destino. Destino romântico e abençoado, segundo dizem. Afinal de contas, é lá que está o santo papa… O que poderia correr mal?

O avião saiu atrasado. Foi uma falha no motor. Pelo menos foi isso que a menina disse pelo intercomunicador. “Pedimos desculpa pelo atraso. Houve um problema no motor, mas já estamos prontos para descolar. Boa viagem”. Não acham que isto foi, por si só, um sinal de como eu não devia ter entrado no avião? Ultimamente, e com aquelas notícias todas sobre despenhamentos de aviões, as pessoas deixaram de viajar desta maneira.

Parece que vivemos num mundo meio apocalíptico. É surpreendente. Se pensar em como eram as coisas em 2015 até me dá vontade de rir. Enfim. Agora, em 2040, os aviões andam quase desertos. Ou melhor, voam… Piadas à parte, as companhias aéreas estão a falir. Este avião, por exemplo, se chegar a levantar voo, vai “cheio” com sete pessoas. É ridículo! Continuo a pensar que devia ter ficado em casa. Mas agora já não há volta a dar… Já estamos a descolar.

Depois de duas horas e meia de tortura, a pensar que devia estar noutro sítio, lá cheguei a Roma. Não se enganem, adoro Roma. É linda. As praças, as fontes, a comida, a língua italiana…Tudo isso me faz querer vir aqui! Na verdade, vou vos contar porque aqui estou. Sei que vai parecer lamechas, mas a primeira vez que aqui vim foi em 2015, no tempo em que os aviões vinham a abarrotar de gente… Vim com amigos. Foi espetacular.

De mochila às costas, percorremos Itália de norte a sul. Roma foi a última cidade e foi dela que mais gostei, confesso. Desde ai, tenho voltado cá de cinco em cinco anos. E todas as vezes têm sido um sonho…Mas, hoje, estou com uma má impressão. Devia estar em Braga! Percorrer a rua do Souto a ver as montras, ou dar um passeio até ao Parque da Ponte ou até mesmo ir ao Bom Jesus me parece melhor do que estar aqui.

Lá se passaram dois dias… dois bons dias. Mas eu continuava assombrada. A ideia não saía da minha cabeça. Foi na quarta que o meu mundo desabou. Estava a ser perseguida…tenho a certeza! Fui eu ao coliseu e senti uns olhos a perseguirem. Eu sei que não é suposto andar sozinha por ai, mas também nunca fui mulher de ter medo. Enfim. Estava eu a dizer… Ah, no Coliseu parecia que tinha alguém atrás de mim. Quando dei por ela, uma pulseira minha tinha desaparecido. Ou tinha sido roubada. Não sei. Só sei que comecei a entrar em pânico. Fui até ao agente de polícia mais próximo de mim e ele não me ajudou. Fui aos perdidos e achados do Coliseu e mandaram me embora. Fogo! Porque é que ninguém me quis ajudar? Sou uma cidadã europeia e tenho os meus direitos! Chateada, decidi procurar pelo consulado português. E conseguir encontrá-lo? Foi um pesadelo. Percorri as ruas infinitas de Roma de táxi e nada… Mas porque é que eu vim afinal? Devia ter ficado em casa.

Cansada, decidi sentar-me num banco que vi. Mal me sentei, vi um senhor a tentar falar comigo em italiano. Dizia que não podia estar ali e que tinha de ir embora. Mas que raio? Está tudo contra mim? Queria vir embora. Queria voltar para a minha cidade, mas tinha de esperar. Como forma de passar o tempo, resolvi escrever esta carta, este desabafo. Quero que alguém me ouça, já que os italianos não o fazem.

Sou uma mulher de religião, sabem? Acredito em tudo. É esse o meu problema. Já dizia a minha avó que, por vezes, andamos acompanhados. Fantasmas, espíritos, sombras, chamem o que quiserem. O que é certo é que eu acredito nisso. E sinto-os comigo. Podem pensar que estou maluca, e se calhar, estou mesmo, mas eu sei que está alguém comigo! Isto é uma conspiração. Uma conspiração assombrada! É como se tivesse um mau-olhado sobre mim. Tudo o que poderia acontecer de errado está a acontecer.

Ultimamente tenho vindo a ter sonhos esquisitos. Sonho com casas abandonadas, com jardins obscuros, com pessoas perdidas… Pessoas que me procuram, como se procurassem uma porta para a salvação, como se eu não fosse mais do que um portal para o outro lado. Estranho, eu sei.
Divagações à parte, eu não devia ter vindo. Devia ter ficado na minha cidade, na minha casa…e, certamente, não devia estar a chatear ninguém com os meus pensamentos. Desculpem… desculpem este desabafo assombrado, esta carta inacabada, estas palavras sem destino e este final amargurado.

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