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Conseguiremos perceber os partidos?

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Conseguiremos perceber os partidos?

Ideias

2020-01-20 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Há muitos anos um político, na altura governante, disse-me ser capaz de identificar os amigos, saber quem eram os inimigos, mas nunca tinha conseguido integrar de forma definitiva os colegas do partido num desses grupos. Umas vezes estavam alinhados com os amigos, outras pulavam para o outro lado da barricada e outras ainda pairavam sob uma zona nebulosa, não se percebendo muito bem que terreno pisavam. Este fim-de-semana diferentes partidos exibiram no espaço público essas zonas movediças que os militantes fazem deslizar de quando em vez.

Saídos de umas eleições de resultados algo desconfortáveis, os sociais democratas cedo começaram a esgrimir espadas em direção ao líder, Rui Rio. Luís Montenegro seria o opositor previsível, contando com o apoio de alguns barões do partido e daqueles que sempre acompanharam Pedro Passos Coelho. Havia aqui um poder de influência, particularmente no espaço mediático, que garantia algum otimismo quanto ao resultado a alcançar. Todavia, a notoriedade pública nem sempre é sinónimo de controlo das bases e, no caso das diretas, a contagem de votos faz-se um a um. E, como se tem comprovado, Rui Rio domina o aparelho social-democrata, o que lhe garantiu uma vitória que nenhum opositor poderá colocar em causa nos próximos tempos. Todavia, na declaração pública de sábado à noite, por detrás do sorriso que ia exibindo, Luís Montenegro deixou avisos de que continuará a andar por aí. Como se viu através das imagens que os canais de televisão iam emitindo, terá o apoio daqueles que Rio expulsou da Assembleia da República nesta legislatura e que não esquecem isto: a vingança serve-se sempre fria.

Este fim-de-semana foi também tempo para o Congresso do Livre, o partido que elegeu apenas uma deputada, mas, pelo espaço que tem nos media noticiosos, mais parece ocupar a maior parte das cadeiras do Parlamento. Joacine Katar Moreira cedo se converteu num problema no interior do próprio partido e, no sábado, de dedo em riste, lá esteve ela na tribuna para dizer que os congressistas “não sabem da missa a metade”, queixando-se que estavam a usar “o mediatismo e sensacionalismo” para a tentarem afastar da Assembleia da República. “Isto é uma perseguição absoluta. Isto é inadmissível. E só vos digo isto: eu não fiz nada de errado. Ainda. Ainda”, declarou. Seguindo esta deputada desde o início da legislatura e tendo em conta as posições do partido que a sustenta, pergunto: que relações são estas? Sem o apoio do Livre, Joacine Katar Moreira não deveria renunciar ao seu mandato? Ela já assegurou que nunca fará isso. E eu ficou espantada com esta incompreensível teimosia.

Muitíssimo mais hábil nas movimentações de peças do xadrez político, Pedro Nuno Santos deu uma entrevista à edição desta semana do “Expresso”, declarando que “preferia um acordo escrito com a esquerda”, na medida em que isso, na sua opinião, garantiria uma legislatura mais pacífica. Sabe do que fala, já que foi ele quem, na anterior legislatura, conduziu no Parlamento grande parte das negociações com o PCP, BE e PEV. Ao longo da conversa, os jornalistas insistem com o ministro das Infraestruturas e Habitação para que este se pronuncie sobre o ministro das Finanças, mas Pedro Nuno Santos sabe bem o quanto é comprometedor para si, que se situa na fação mais à esquerda do PS, elogiar o excedente orçamental e o quanto seria igualmente sensível soltar uma crítica a Mário Centeno. Por isso, desviou-se do assunto. Mas não se esqueceu de deixar um elogio ao chefe do executivo que integra: “a minha lealdade para com o primeiro-ministro é inabalável e existirá sempre”. Palavra de ministro. No entanto, Pedro Nuno Santos nada disse sobre António Costa. Porque já ao nível do PS muita coisa poderá mudar...

Por estes dias, vou avançando na leitura do último livro de Daniel Innerarity, intitulado “Política para perplexos”. Ao longo da obra, reitera-se que, nos tempos atuais, não temos qualquer domínio sobre a realidade “nem em termos de antecipação teórica, nem no que se refere à sua configuração prática”. Esta instabilidade sempre caracterizou os partidos políticos, mas há jogos internos que tornam muito difícil qualquer entendimento do que por lá se passa.

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