Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

Condenar a Humanidade criminalizando quem a salva - a Tragédia do Mediterrâneo

Um caos ou um caso de sucesso

Condenar a Humanidade criminalizando quem a salva - a Tragédia do Mediterrâneo

Ideias

2021-12-09 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Hoje, véspera do Dia Internacional dos Direitos Humanos, pergunto: o que une Miguel Duarte, Carola Rackete, Sarah Mardini, Seán Binder, Athanasios Karakitsos? E respondo: une-os a coragem inquebrantável de salvarem vidas. E isso deveria bastar. Mas une-os também o facto de todos terem sido, em diferentes tempos, acusados de apoio à imigração ilegal.
Miguel Duarte foi acusado em 2018 pelo governo italiano, de auxílio à imigração ilegal enquanto salvava vidas no Mediterrâneo, tendo enfrentado a possibi- lidade de uma sentença de 20 anos de cadeia. Finalmente, em março deste ano, foi ilibado pela justiça italiana de todas as acusações que pendiam sobre ele.

Carola Rackete, alemã, foi também ela acusada de crime de auxílio à imigração ilegal pelo mesmo governo italiano, em 2019. Recorde-se que enquanto capitã de um barco salva-vidas, Carola resgatou 42 pessoas à deriva no Mar Mediterrâneo, seres humanos em estado de enorme debilidade física e emocional, e teve a coragem de afrontar o bloqueio policial que visava impedir a chegada do barco Sea Watch 3 ao porto de Lampedusa. Também Carola foi entretanto ilibada pela justiça italiana em maio deste ano.
Agora é Seán, Sarah e Nassos que enfrentam a acusação pelas autoridades gregas de auxílio à imigração ilegal. Três jovens voluntários ante a desconcertante possibilidade de 25 anos de prisão por salvarem vidas no mar, ao largo da Ilha de Lesbos, em 2017. E por prestarem assistência, incluindo cuidados médicos, no famigerado campo de refugiados de Moria, muito embora possuíssem todas as licenças exigidas pelas autoridades gregas para poderem operar nesse campo.

Estes três casos revelam entre si uma muito inquietante tendência: a da crescente criminalização do trabalho de voluntários e de organizações humanitárias, trabalho que tem permitido salvar milhares de vidas que acorrem à Europa em busca de segurança e de melhores condições de vida, que fogem ao caos, aos autoritarismos, à desesperança, à miséria.

Nesse processo de criminalização, repare-se como o termo ‘pessoa’ é obliterado da narrativa oficial, sendo substituído por ‘imigrante ilegal’, como se a condição legal do indivíduo à luz de um ordenamento jurídico, seja ele qual for, diluísse ou anulasse a sua condição primeira de ser humano. Repare-se como ‘salvamento’ é substituído por ‘ajuda ilícita’, como se o declarar público da ilicitude do ato anulasse a humanidade, a compaixão, a retidão que que ele em si transporta. E repare-se ainda como as acusações jogam com as próprias perceções da opinião pública, substituindo ‘refugiado’ ou ‘requerente de asilo’ por imigrante ilegal’, como se houvesse uma substancial diferença, não apenas legal mas de natureza ética, entre uma e outra condição, colocando o ‘imigrante’ do lado mau, do lado a ser expurgado, condenado, rechaçado e com ele, todos os outros que o tenham ajudado.

Foi contra esta criminalização absurda, que ignora o sofrimento de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, e foi em defesa destes três jovens voluntários e seus companheiros, que no mês passado juntei a minha voz à voz de 70 eurodeputados, numa carta que apela à justiça, à verdadeira justiça que só pode ser alcançada com a imediata libertação destes jovens.
No dia 25 de abril deste ano, perante a morte de cento e trinta pessoas num naufrágio no Mediterrâneo, o Papa Francisco afirmou: “São pessoas, são vidas humanas que durante dois dias imploraram em vão por ajuda, uma ajuda que não chegou. É o momento da vergonha. Rezemos por esses irmãos e irmãs e por tantos que continuam a morrer nessas viagens trágicas. Rezemos também por aqueles que podem ajudar, mas preferem olhar para outro lado".
Estes jovens, Seán, Sarah, Nassos, não olharam para o lado. Nada os envergonha. Não são eles que têm de se reconciliar com o amor à Humanidade, mas todos os outros, todos nós, que olhamos para o lado, como bem disse o Papa Francisco.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho