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Comunicação social e agenda política

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Comunicação social e agenda política

Escreve quem sabe

2019-02-15 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Quem como eu vai lendo a comunicação social sente-se completamente perdido. Os jornais, mas sobretudo as televisões agrupam os seus assuntos em três grupos. Em primeiro lugar, o futebol, cujos jogos são analisados antes, durante e depois ocupa seguramente um terço das emissões televisivas. O segundo grupo de notícias agrupa os crimes, conflitos e desastres, nele incluindo a violência doméstica, os roubos, as agressões, os desastres naturais e as greves. O último grupo engloba as vigarices, as falcatruas e a corrupção, quer das elites, quer de outros grupos socias, tradicionalmente portadores da moralidade pública.

Mas será que a sociedade os portugueses são potencialmente corruptos e criminosos e só se interessam por futebol? E, então os meios de comunicação social pretendem criar um sentimento de catarse coletiva e de procura de um “novo” quadro político. Ora esta opinião pública não é diferente da que levou Tump ao poder e inspira muitos regimes autoritários. Os movimentos de regeneração acabam assim.
Mas será que existe um nexo de causalidade entre a opinião pública e as decisões políticas? Os analistas políticos quando falam da construção da agenda política, referem, em geral, três teorias. A primeira, abordagem tradicional, trata as políticas públicas como respostas aos problemas, respostas essas desenhadas de acordo com os programas eleitorais dos partidos que ocupam o poder. Neste modelo, os meios de comunicação são considerados neutrais.

Todavia, a formação da agenda política é bem mais complexa, já que numa decisão existem vários interesses a ter em conta. Neste contexto as decisões políticas dependem do jogo de interesses, articulados por grupos e partidos políticos. Segundo Cobb e Elder (1983), a dinâmica da construção da agenda impele o poder a responder, ora ignorando a pressão dos grupos, ora tentando desmobilizá-los, ora desacreditando os líderes, ora aceitando, como legítimas as suas reivin- dicações, mas diminuindo o seu alcance, ora reorientando a pressão social para os objetivos do governo.
Finalmente, os meios de comunicação social têm um papel decisivo; não tanto como querem alguns que vêm na comunicação social a determinante da agenda política. Segundo a mais recente abordagem, a opinião pública tem sobretudo importância na criação do ambiente em que operam os decisores políticos e os grupos de pressão.

E porque é que os meios de comunicação social martelam este tipo de assuntos? Pode não ser porque têm uma agenda populista, mas tão só porque essas notícias vendem (veja-se o caso da SIC que abandonou a sua marca tradicional para se aproximar da TVI ). E se vendem é porque determinada opinião pública já impregnou a forma de pensar da maior parte dos cidadãos. Mas isto perigoso, já que pode abrir caminho a formas de populismo.
Todavia, os governos não são atores neutros, meros recetores da opinião pública, devendo ter um papel ativo na formatação da opinião pública. E, neste ponto, o governo é responsável, já que apenas remenda as contradições.
Não sei muito bem com lidar com este ambiente, mas tenho a sensação que caminhamos sobre um campo minado.

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