Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Complexidades

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2017-03-03 às 06h00

Margarida Proença

Penso que nisto estamos todos de acordo - apesar dos telemóveis, dos computadores, da internet que de facto nos facilitam a vida e o trabalho, o mundo está cada vez mais complexo. As organizações, que ainda hoje tendemos a pensar como entidades hierarquizadas, com processos estandardizados e burocratizados, onde o planeamento e a definição de estratégias pensadas e claras, para o médio prazo, é importante, correspondem na verdade a um mundo que já passou.
Lembro, com alguma nostalgia, um alto funcionário público, com funções diretivas superiores de segundo nível, que assinava os seus despachos com um simples “não concordo nem discordo. Á consideração superior”…

Começou-se depois a olhar para as organizações, fossem quais fossem, como sendo capazes de resolver problemas, mesmo que complicados. De forma incremental, pouco a pouco, estabelecendo relações causais , de forma ponderada, focando cada problema ou cada objetivo por sua vez, resolvendo e solucionando, de forma sistemática, seria possível reduzir custos , aumentar a eficiência e a satisfação dos clientes e dos utentes.

Aquilo que ficou conhecido como a estratégia 6 sigma, considerava que o sucesso se baseava nesta metodologia incremental bem como no envolvimento da alta administração. Claro que a iniciativa, o entusiasmo, a criatividade, a capacidade de trabalhar em equipa, a aptidão para gerir projetos e motivar colaboradores, o raciocínio analítico e quantitativo eram, nesse contexto, fundamentais - mas no fundo tudo se traduzia na capacidade de definir de forma cuidada os problemas, determinar as causas , propor soluções, implementá-las e proceder à sua avaliação por forma a garantir o sucesso. Coisas difíceis, certamente, mas de certa forma lineares, com princípio , meio e fim , explicações , teorias e modelos “by the book”. O envolvimento da administração de topo, da liderança, aparecia, portanto, como central no processo, com poder discricionário e mantendo o segredo sobre decisões que poderiam traduzir-se em vantagens competitivas.

No mundo empresarial, mas também na opção por políticas públicas tomadas por quem de direito.
Um relatório muito interessante da OCDE sobre inovação no setor público, acabado mesmo de ser divulgado, convida a refletir exatamente em como tudo isso pertence a um mundo que já foi. A ideia que aparece subjacente ao longo de todo o documento é que a dinâmica tecnológica e a globalização e crescente interconectividade de pessoas, recursos, mercados e instituições, tornou o mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo (em inglês, VUCA ).

As coisas não são lineares nem simples, as causas não são facilmente encontradas, o segredo não é a alma do negócio porque os cidadãos têm ou virão a ter toda a informação, e os clientes e os concorrentes também. Dois autores, Curtatone e Esposito, num breve comentário publicado em 2014, dão um exemplo da dificuldade em derivar relações de causa-efeito, mas também das relações existentes entre sistemas que aparentemente apenas são diferentes, já que tudo se interrelaciona; contam o caso da construção de uma autoestrada num subúrbio denso de Boston, e que aparentemente terá cortado uma localidade ao meio. O impacto da autoestrada veio a ser medido, negativamente, por um aumento significativo das taxas de obesidade infantil.

Não é fácil mudar os esquemas de liderança ou os critérios de decisão política. Uma amiga costuma dizer que o grande problema da geração a que pertenço , foi ter trazido o século XIX para o século XXI. A profunda alteração do valor e da importância da alteração simboliza bem essa mudança, mas os mais novos também ainda não a interiorizaram , enquanto por outro lado, a desinformação e a criação e divulgação de “factos alternativos” através de redes sociais assumem hoje também um valor imenso. Os políticos ainda não perceberam , ou interiorizaram isto - e daí que , de tempos a tempos , as histórias de retenção de informação se sucedam.

Neste contexto atual de crescente complexidade e incerteza, os gestores e os decisores públicos devem conhecer muito bem o setor, as interrelações existentes, para que as decisões possam ser tomadas de forma a minimizar a incerteza, deter formação adequada e oportunidades de aquisição de novas competências que facilitem a leitura e a decisão num mundo cada vez mais marcado por paradoxos - a União Europeia face ao crescente nacionalismo, a globalização associada ao progresso tecnológico que permitiu o crescimento económico das ultimas décadas e a melhoria da qualidade de vida face ao protecionismo que se vai tornando dominante, os ciclos político-eleitorais face à necessidade de assegurar a sustentabilidade financeira intergeracional, a urgência da transparência face a uma crescente fragmentação e especialização.

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