Correio do Minho

Braga,

Competitividade em contexto global

Está confirmado, vem aí o Natal

Ideias

2010-09-24 às 06h00

Margarida Proença

Esta semana, por acaso simplesmente, vi um vestido lindíssimo, de alta costura. O vestido era diferente, simples, mas muito, muito elegante. Claro que o preço era correspondente; estava aliás numa loja de uma marca reputadíssima como de luxo. Ora bem, o vestido em causa tinha a indicação “Made in China”.

A discussão da competitividade remete-nos necessariamente para o contexto global para a estrutura de custos envolvidos, mas não só. Apesar de ter sido produzido na China, e ter essa indicação no vestido, a marca do costureiro de alta-costura remetia para um produto em que o preço não fazia diferença. Quem comprasse o vestido, fá-lo-ia se custasse 1.000 euros, e não o compraria se o seu preço fosse 20 euros numa outra loja qualquer.

A marca importa, o design importa, a qualidade percebida por nós enquanto consumidores importa. O valor acrescentado do vestido estava exactamente na diferença que tinha, e que com certeza tinha resultado da criatividade do costureiro e da sua equipa. São competências que se podem desenvolver na sequência de processos formativos, e que cada vez mais comprovam a evidência que as empresas não podem competir neste mundo global em que vivemos sem ser por esta via. Querer competir com base em custos de produção baixos, para empresas europeias e na Europa, é coisa do passado a que não vamos seguramente voltar.

Vale a pena sublinhar isto, não só porque é verdade, mas porque estamos no início de um ano lectivo. Para estudar - em termos individuais e sociais. Para os jovens, se mais cedo estiverem em contacto com o ambiente de maior exigência do ponto de vista educativo, com maior grau de socialização também, com professores motivados, empenhados e conscientes da enorme importância da função que desempenham e face à qual devem, portanto, ser avaliados.

Se a escola está a dois metros de casa, ou mais longe é perfeitamente irrelevante; para isso se fizeram os meios de transporte. O ensino superior por sua vez representa um investimento rentável, que não se esgota no momento da conclusão do curso, pelo contrário, se estende cada vez mais como educação permanente, ao longo da vida.

Agora que tanto se fala em desemprego, convém ter presente que o rendimento disponível per capita dos consumidores euro-peus com uma educação universitária é, em media, mais do dobro do que o rendimento de pessoas com níveis de educação ao nível do ensino básico. A taxa de desemprego, ou a duração média do desemprego, é também mais baixa.

Será de esperar acréscimos da produtividade e trabalhadores mais criativos, capazes de gerar processos produtivos de maior valor acrescentado. É aí que será feita, de facto, a diferença; e toda a actual discussão sobre o défice orçamental, importante sem dúvida, não deveria permitir esquecer que os países podem distribuir mais entre os seus cidadãos - mais educação, mais saúde, etc - se produzirem mais, se forem mais ricos. E por aqui, lá voltamos outra vez à questão da competitividade e da produtividade.

São sempre questões de percepção. Vejamos a questão do desemprego; é sabido que as economias reagem lentamente, e por sinais. Uma explicação possível para isso baseia-se também no comportamento, nas percepções e nas expectativas que temos individualmente.

Se a informação que circular for no sentido de que o subsídio de desemprego deve ser alargado o máximo possível, e eu criar a expectativa que isso vai acontecer, então não vou aceitar ofertas de emprego, a menos que sejam traduzidas num aumento salarial significativo. De forma análoga, se tiver tido um emprego bem pago antes do desemprego, vou rejeitar um emprego com salário mais baixo. Ou ainda, se tiver a expectativa de que as coisas agora estão mal, mas vão melhorar rapidamente, e portanto eu não aceito a oferta de emprego agora, porque daqui a seis meses vou ter outra bem melhor.

A mobilidade é outro aspecto do problema. Dizer aos trabalhadores que deveriam existir condições para mobilidade inter-regional, pode parecer complicado, contra os interesses dos mesmos, e portanto mereceria a rejeição. Mas não. Quanto mais restrita for a mobilidade, mais as empresas tenderão a baixar os salários. Menor mobilidade acaba também por contribuir para demora na capacidade da economia absorver o desemprego.

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