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Como se faz uma amizade permanecer?

Cisnes negros

Como se faz uma amizade permanecer?

Ensino

2020-01-25 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

Ontem, sexta-feira, foi finalmente assinado o “acordo Brexit”. A Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen e o Presidente do Conselho, Charles Michel, assinaram o documento que formaliza essa saída histórica de um Estado membro da União. O documento será, agora, apreciado e, espera-se, aprovado no Parlamento Europeu (em sessão plenária) no próximo dia 29 de Janeiro. E, dessa forma, Boris Johnson concluirá definitivamente, pelo menos em termos simbólicos, a sua retumbante vitória eleitoral interna. Cumprirá a promessa de colocar o Reino Unido fora da UE até 31 de Janeiro – pese embora, a assinatura do acordo ser um passo essencialmente formal (necessário, mas formal), na medida em que se entrará, até ao fim do ano, num período de transição. Ou seja, até ao fim de 2020, no essencial, as regras do Direito da União manter-se-ão em vigência também do lado de lá do Canal da Mancha.

Charles Michel afirmou que, para além de se iniciar “um novo capítulo” entre aliados, “as coisas vão inevitavelmente mudar, mas a nossa amizade permanece”. Ora, as amizades cimentam-se e, muitas vezes, criam-se mesmo com bons negócios.
E, não creio que uma mudança de relações comerciais e uma recusa (inevitável, mais ou menos extensa) das liberdades de circulação (para além de mercadorias, pessoas, a prestação de serviços e circulação de capitais) potencie melhores relações económicas (melhores negócios) do que os que existiam no Mercado Interno.

Por outro lado, não é possível – sob pena de incoerência política geradora de efeitos nocivos futuros, em termos de estabilidade e unidade dos demais Estados membros – que a União aceite, ainda que dissimuladamente e sem perder a face, manter um regime sucedâneo ao regime do Mercado Interno, em favor do Reino Unido. No fundo, deixando no essencial (para os britânicos) tudo na mesma. Uma saída política, mantendo, contudo, os benefícios do Mercado Interno. Por isso, se os bons negócios fazem os bons amigos, algumas nuvens pairam (pelo menos, agora) sobre o futuro da relação entre o Reino Unido (em rigor, a Inglaterra sobretudo) e o resto da Europa integrada.
Ora, não sei se a História se repete ou não. No entanto, há tendências que, sem dúvida, verificam-se recorrentemente, em novas formas e cambiantes, ao longo da História.

Por isso, o conhecimento dessas tendências, das suas causas e respetivos efeitos, das especificidades dos seus contextos (no fundo, o conhecimento da História) é fundamental para uma boa compreensão do presente. E, a propósito do “Brexit” e da pretensão soberanista mitigada britânica – mitigada porque sempre quis manter e beneficiar do Mercado Interno, sem o ónus da responsabilidade política face à integração – será interessante atentar nas circunstâncias do acordo de livre comércio celebrado em 1861, entre a França de Napoleão III e a Grã-Bretanha de Gladstone. Durou pouco, as resistências foram muitas (sobretudo do lado popular francês), mas a intenção foi – e nesse aspeto o objetivo foi alcançado! – acalmar as relações franco-britânicas. Não se pretendeu propriamente tornar a França e a Grã-Bretanha “grandes amigos”, mas, pelo menos e pela via do bons e facilitados negócios (livre cambismo), queria apaziguarem-se as relações políticas e estratégicas que, fruto de uma concorrência industrial aguda, eram crispadas.
Em resumo, a UE não podendo ceder no que é o Mercado Interno (permitir exceções), não pode, também e simultaneamente, obstaculizar bons negócios, em benefício de ambos os lados. Isso deverá ser assim, se aquela proclamada intenção de se manter a amizade, for mesmo para ser levada a sério...

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