Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Como ensinar o entusiasmo?

Portugal Menos, Portugal Mais

Ideias

2011-12-20 às 06h00

João Paulo Teixeira

Formamos bons profissionais! Esta é a promessa que todas as escolas fazem aos alunos dos cursos profissionais. Se te aplicares e fores responsável vais sair daqui preparado para dar resposta às exigências do atual mercado de trabalho. Mas será mesmo assim? Não será confiança a mais no poder do pensamento positivo?

O youtube está atafulhado de milhares de vídeos com jovens a atirarem-se de telhados, de pontes, a atravessarem autoestradas a correr e a acabarem esfrangalhados no chão. O pensamento positivo tem poder, mas é preci-so cuidado, pode aleijar.

Qual é a fórmula para se formar um bom profissional? O povo costuma dizer que não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. Mas com alunos pouco motivados, a escola atual tem primeiro de convencer que o peixe faz bem à saúde, ensinar a pescar, remar, dar acompanhamento psicoeducativo para que não desanimem quando pescam uma bota em vez de um peixe e evitar que desistam quando descobrirem que os peixes não querem ser pescados. O melhor talvez seja sentá-los à mesa e ser- vir-lhe uns medalhões de salmão com molho de ostras e não se fala mais nisso.

Um bom aluno do ensino profissional tem entusiasmo pela sua área de trabalho. Mas como se ensina na escola o entusiasmo e a paixão pelos desafios profissionais?
Não se ensina. Não se ensina a insatisfação, a inquietação depois do toque para resolver um problema, as horas de pesquisa à noite, o desejo de concretizar desafios cada vez mais exigentes, a ambição de alcançar o nível de qualidade das principais referências no mercado de trabalho.

Faltam muitas variáveis na fórmula simplista esforço + assiduidade + responsabilidade = bom profissional. No atual modelo educativo, em que a necessidade de números levou à aclamada universalização do ensino profissional, tem-se valorizado pouco a possibilidade do erro, as más opções, a indefinição das vocações e as saídas profissionais demasiado rígidas.

Algumas turmas são formadas por grupos heterogéneos, desconhecendo a natureza da formação que integram e, sem saberem muito bem como, vários alunos vêem-se a cumprir pena, de um a três anos, pressionados para a conclusão do curso, mesmo que seja melhor parar, inverter o sentido e procurar novos caminhos. Imagine-se um jovem numa escola de futebol a arrastar-se pelos escalões, em que a única semelhança com o Ronaldo é que também tem duas pernas e calça 43, mas a quem ninguém tem coragem para dizer que deve desistir, que nunca passará, nem no carnaval, por um jogador de futebol.

A adolescência é frequentemente catalogada como um período de incertezas, dúvidas e convulsões e, no entanto, no ensino profissional espera-se que a margem de erro nas opções dos alunos seja mínima. Está certo que o jovem possa estar confuso quanto à sua sexualidade, tenha problemas de autoestima por causa de borbulhas, fume charros para se integrar melhor no grupo de amigos, mas quanto ao futuro profissional é pouco provável que se engane redondamente. Formam-se grupos de vinte e muitos alunos e dizem-lhes que agora só há um caminho: o sucesso para o aluno é conclusão do seu curso. Para a escola impõe-se a mesma lógica sombria: Taxa de sucesso = taxa de conclusão.

A orientação vocacional depende, muitas vezes, da experiência de vida dos formandos, dos seus imaginários, dos seus ambientes familiares, daí que a escola tenha de aceitar que o percurso da formação não possa ser linear, sabemos onde começa, mas não podemos prever onde terminará, nem que caminho irá percorrer.

O maior desafio do ensino profissional para os próximos anos, evitando ficar preso num universo paralelo ao mercado atual, é a criação de estruturas curriculares mais flexíveis, que permitam aos alunos não serem engavetados e etiquetados desde o início com uma área profissional.
Até há poucos anos, o ensino profissional era bem mais restrito, destinado a um grupo de alunos que necessitava de uma aprendizagem assente numa forte componente prática.

E é com orgulho que olho para os 22 anos de formação profissional promovida pela EPB e vejo ex-alunos a povoarem o mercado de trabalho da região e a dinamizá-lo com a criação de projetos e empresas de qualidade. Felizmente, na EPB ainda recebemos grupos de alunos entusiasmados com as áreas profissionais que escolheram, mas não é essa a tendência para o futuro próximo.

Chegou a altura dos nossos governantes decidirem se pretendem utilizar as formações profissionais como as saídas de emergência num edifício em ruínas e altamente perigoso, que é a atual estrutura de ensino em Portugal, ou se pretendem reformular o ensino a partir das bases.

A formação profissional não pode ser pensada por alguém que se senta a olhar para a escola do 9º ano para a frente, de costas voltadas para oito anos de ensino.
A formação profissional tem de ser enquadrada numa ideia consistente do que é formar uma geração para os desafios do país nos próximos vinte a quarenta anos.

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