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Como Braga combateu a Gripe Espanhola

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Ideias

2020-03-15 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Winston Churchill referiu, num dos momentos mais dramáticos da história da Humanidade (a 2.ª Guerra Mundial), que o mundo estava diferente e as pessoas tinham que se preparar para essas diferenças. E acrescentou que, perante momentos difíceis, o “tempo para adiar, para meias medidas, para expedientes conciliadores e ilusórios, para atrasos” esgota-se rapidamente.
As palavras de Churchill podem ser aplicadas, não só no momento atual, em que Portugal, a Europa e o Mundo deparam-se com uma epidemia que tem causado uma enorme preocupação, mas também podiam ser aplicadas aquando da mais mortífera epidemia que atingiu a humanidade: a Gripe Espanhola!
Com forte incidência em 1918 e 1919, a Gripe Espanhola prolongou-se, em muitas zonas do mundo, até ao ano de 1920, sendo a mais mortífera desde a célebre Peste Negra, do século XIV.
Esta epidemia afetou cerca de 500 milhões de pessoas e provocou a morte a um número estimado entre os 20 e os 100 milhões de vítimas! O número equivaleria, atualmente, a um algarismo situado entre os 200 e os 425 milhões!
Há muitas semelhanças entre o atual surto de Coronavírus e a Gripe Espanhola: alguns estadistas estão atualmente infetados, tal como então foram infetados o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, o primeiro-ministro da França, Georges Clemenceau e da Grã-Bretanha, David Lloyd George, durante a realização da Conferência de Paz, em Versalhes, em junho de 1919,
Os primeiros indícios da gripe surgiram no Kansas, EUA, na Primavera de 1918, e chegou à Europa no Outono desse ano.
Em Portugal, a Gripe Espanhola foi devastadora, agravando ainda mais a crise económica, social e política que assolava o país desde o fim do regime monárquico.
No “Diário da História de Portugal” (JHS e MLG) vem o relato dramático de uma família de Amarante que, no dia seguinte ao seu regresso de Madrid, viu morrer o “…marido, a mulher, o padre que os enterrou, o sacristão, os homens que levaram a urna, a cozinheira, os vizinhos, e até os cães e o gado…”.
No distrito de Braga, em 1918 e 1919 morreram 9276 pessoas! Só nos meses de outubro e novembro de 1918 morreram neste distrito 4773 pessoas.
O concelho de Braga foi o mais afetado com 754 vítimas, seguido de Barcelos com 700. Famalicão, registou 579 vítimas, em Fafe e em Vila Verde 499, em Guimarães 432, em Cabeceiras de Basto 312, em Celorico de Basto 228, em Vieira do Minho 207, em Esposende 183, na Póvoa de Lanhoso 163 e em Terras de Bouro 95 vítimas. As mulheres foram as mais visadas, com 2646 mortes e os homens com 2127 (“Commercio do Minho”, 12 de outubro de 1919).
Só no mês de março de 1919 foram enterrados, no cemitério de Braga, 258 pessoas, sendo 76 delas menores de sete anos.
Naquele tempo, a forma como as autoridades de Braga combateram este surto epidémico foi bem eficaz e muitas dessas medidas são adotadas, precisamente na atualidade, pelas autoridades nacionais, nomeadamente:
- O Governo Civil proibiu a realização de feiras e romarias e adiou para meados de novembro de 1919 a abertura do ano letivo;
- A Câmara Municipal de Braga mandou lavar as ruas de Braga com as águas do rio Cávado e mandou queimar eucaliptos e pinheiros para purificar o ar da cidade;
- O Hospital de S. Marcos proibiu, em abril de 1919, a visita aos doentes internados neste hospital.
A nível nacional, o Governo tomou medidas drásticas, nomeadamente a suspensão das ligações ferroviárias entre Portugal e Espanha, o encerramento de teatros e cinemas e até os cortejos funerários. A situação era tão dramática que em alguns locais não havia sequer ninguém para enterrar os mortos.
Enquanto não se encontrava uma vacina para esta gripe, tentava-se combater a doença conforme a imaginação de cada um. Surgiram, então, situações caricatas: uns aconselhavam a beber whisky, outros a comer muito alho, outros ainda aconselhavam a extrair as amígdalas ou os dentes, ou ainda a inalar clorofórmio.
As medidas tomadas surtiram efeito pois, relativamente a Braga, em setembro de 1919 o subdelegado auxiliar de Saúde, Dr. Eurico de Almeida, informava que “…é magnífico o estado sanitário de Braga, tendo desapparecido a variola e quasi não existindo o typho.” (CM, 11 de setembro de 1919).
Atualmente, estamos perante uma nova epidemia, num estado de “pré-guerra” como é caracterizada a situação em Itália ou Espanha, por exemplo.
Começamos a constatar que a evolução vertiginosa dos hábitos sociais confronta-se com o crescente aumento da difusão de doenças infetocontagiosas, que estão a alargar o seu campo de ação. Basta lembrar que nas duas últimas décadas surgiram (ou ressurgiram) mais de trinta novas doenças (SARS - síndrome respiratória aguda grave, detetada na China no fim de 2002; a Gripe aviária, que surgiu em 1900, na Itália, e ressurgiu em 2005, ou o Vírus do Nilo, que surgiu no Algarve em 2004, são algumas delas).
Neste sentido, esta epidemia deve fazer-nos pensar nos hábitos que temos e na contribuição que damos para um mundo mais seguro e saudável.

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