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Braga, terça-feira

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Como Braga assistiu à conversão de um turco e de um negro

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Ideias

2012-12-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Ao longo dos séculos, Braga soube sempre desenvolver um conjunto de dinâmicas religiosas que justificam o nome pela qual é conhecida - ‘Roma Portuguesa’.
Algumas das principais estruturas religiosas portuguesas estão aqui concentradas desde há séculos, como são os casos da Sé, do Bom Jesus, do Sameiro, do Paço Arquiepiscopal, bem como de muitas tradições ligadas à religião, cujo rosto são as associações que se fazem a padres e a freiras.

Para justificar este rótulo profundamente religioso, vou apresentar aqui dois exemplos que nos levarão a recuar a pouco mais de um século atrás, e ambos passados numa das freguesias mais centrais de Braga: S. João do Souto.
O primeiro ocorreu a uma semana do Natal de 1899 e causou espanto a muitos bracarenses. Tratou-se do baptismo de um turco, que ocorreu na igreja de S. João do Souto.

Samuel Elisala, natural da Súria (Turquia), tinha 44 anos de idade e exercia as funções de cozinheiro numa instituição em Braga. No início de Dezembro de 1899 ficou gravemente doente e acabou internado no Hospital de S. Marcos. O capelão do hospital, padre Manuel António da Costa, mal tomou contacto com o turco, teve logo como objectivo convertê-lo ao catolicismo. Durante dias a fio, o padre tanto insistiu com Samuel Elisala, que acabou por o conseguir. Alcançado esse objectivo, o padre prosseguiu com o seu propósito e foi ensinando os princípios básicos do catolicismo, até ao momento em que considerou o turco apto para receber o baptismo.

Esse acontecimento solene ocorreu às 9 horas da manhã do dia 20 de Dezembro de 1899, na já referida igreja. Nesse momento, o padre substitui o nome deixando o turco de se chamar Samuel Elisala, para passar a chamar-se Manuel Artur. Os padrinhos de baptismo foram o ilustre Dr. Artur Vilaça (director do Hospital de S. Marcos) e a não menos ilustre baroneza de S. Roque. Durante a cerimónia, tocou em permanência a banda da Oficina de S. José.

Findas as cerimónias, o agora baptizado e convertido Manuel Artur, voltou para o Hospital de S. Marcos, para terminar o seu tratamento, sempre acompanhado por uma multidão de curiosos que assistiram a este acto religioso invulgar, mesmo a findar a Braga Oitocentista!
Não sabemos se foi por influência do baptismo do turco, o que se sabe é que na Páscoa seguinte (Abril de 1900), a igreja de S. João do Souto assistiu a uma nova e invulgar cerimónia religiosa. Desta vez tratou-se do baptismo de um negro!

A cerimónia religiosa ocorreu no dia 26 de Abril de 1900 e envolveu um rapaz negro, com 20 anos, nascido em África.
Não se sabia ao certo qual a proveniência deste rapaz, mas sabia-se que tinha vindo de uma colónia portuguesa e encontrava-se em Portugal há sete anos.

Como era de esperar, as autoridades religiosas de Braga trataram, de imediato, converter este negro africano ao catolicismo. Desta forma, o padre de S. João do Souto assumiu a responsabilidade de lhe ensinar os princípios orientadores da Igreja Católica, e acabou mesmo por o conseguir. A cerimónia de Baptismo ocorreu, como se referiu, no dia 26 de Abril de 1900, e os padrinhos foram o comerciante de Braga, António José Pereira, e a sua esposa. O africano recebeu o nome de José Benedito.

À semelhança do baptismo do turco, também este baptizado foi acompanhado por música, assistindo a estas cerimónias religiosas uma enorme multidão de curiosos e ainda muitos “senhores” e “damas” bracarenses.
No final, o padre de S. João do Souto ofereceu um rosário a José Benedito, para que este pudesse aprofundar a sua vocação religiosa.

Mas não podemos imaginar que tudo era fácil para a Igreja bracarense de finais do século XIX e princípios do século XX. E para comprovar este facto, basta recordar que na igreja do Pópulo ocorriam cenas repugnantes, e que envolveram uma mulher.

Tratava-se de uma senhora, com pouca preocupação pela ética e pela religião, que sempre que entrava na igreja desancava a ofender e a criticar quem via pela frente. Numa dessas situações chegou, inclusive, a agredir com violência o seu próprio marido, e em plena sacristia!

Este desrespeito parecia antever a enorme perseguição que a Igreja acabaria por sofrer uns anos depois quando, após a implantação da República, (1910) sofreu uma impar e feroz perseguição por parte dos republicanos, que levou ao confisco dos bens da Igreja e à expulsão de muitos jesuítas.

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