Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Comboio Celta

Bragafado 2018: a trindade do fado tradicional

Ideias

2013-12-03 às 06h00

Jorge Cruz

O novo comboio ‘Celta’, que liga o Porto a Vigo, encurtou o tempo de viagem entre as duas cidades em 45 minutos, redução que estará na origem de um aumento médio de cerca de 30 por cento de passageiros. No entanto, este novo serviço directo, que está a ser operado desde Julho conjuntamente pelas duas transportadoras ferroviárias ibéricas, arrisca-se a perder a vantagem competitiva que adquiriu com a redução no tempo de viagem se, entretanto, houver cedência a todas as pressões que estão a ser exercidas para criar novas paragens ao longo do percurso.

Com efeito, alguns dirigentes associativos e autarcas parecem não se conformar com a perda das antigas 14 paragens da ligação internacional e tentam convencer os responsáveis a estabelecer paragens intermédias o que, a acontecer, reverterá o conceito do serviço.

Ainda recentemente o Eixo Atlântico defendeu a criação de paragens nas estações de Viana do Castelo e de Nine, esta para assegurar a ligação a Braga, mas o edil de Barcelos incluiu a estação da sua cidade na mesma proposta reivindicativa. Por outro lado, são conhecidas solicitações análogas de responsáveis autárquicos e associativos para a criação de paragens em outros concelhos o que, a acontecer, subverte por completo a filosofia do serviço directo criado em Julho passado.

Não estão minimamente em causa os argumentos aduzidos, designadamente quando os mesmos referem o enorme potencial das regiões polarizadas por Braga e Viana do Castelo. A questão estará em saber se de facto a introdução de sucessivas paragens, com o consequente aumento do tempo de viagem, não contribuirá para o decréscimo dos índices de rentabilidade deste serviço público, já de si bastante baixos.

Responsáveis da CP já alertaram, a propósito, para o facto de eventuais alterações ao serviço terem implicações nos tempos de viagem e percurso, além de desrespeitarem o acordo que, sobre a matéria, foi celebrado pelos governos dos dois países. O que, em última análise, poderá pôr em causa a continuidade do serviço.

Ninguém minimamente esclarecido pode duvidar das vantagens, para as populações de cada um dos concelhos, em manter paragens nas principais estações ao longo do percurso. Contudo, e como a racionalidade económica pode vir a ser invocada a qualquer momento, não creio que seja sensato adoptar medidas que possam vir a colocar em risco a existência do serviço. Há que reflectir sobre as eventuais consequências de regressar ao figurino anterior, aquele em que devido ao excessivo tempo de viagem o comboio só atraía 15 mil passageiros por ano.

Creio que o interesse em melhorar o serviço é indiscutível, o que passa, designadamente, por reduzir ainda mais o tempo de ligação entre as duas cidades. Assistem-me, no entanto, grandes dúvidas sobre a possibilidade de compaginar tal desiderato com a satisfação de todas as reivindicações para a criação de novas paragens. Aliás, o próprio comboio de alta velocidade, que chegou a estar previsto numa nova linha, o que acabava com o ramal de Braga, nunca poderia disponibilizar o número de paragens que agora são reivindicadas sob pena de colocar em risco quer o conceito quer a viabilidade financeira do serviço.

As questões relacionadas com acessibilidades e mobilidade são determinantes para o crescimento económico e desenvolvimento da região. Contudo, e no que à ferrovia concerne, reverter a política de desinvestimento que o nosso país praticou durante longos anos, revelar-se-á, naturalmente, uma tarefa quase ciclópica que se prolongará por muito tempo, obrigando a estudos exaustivos.

Nesse particular, e embora apenas para uma parte da região e não para o seu todo, como convirá, o Quadrilátero Urbano já deu um bom exemplo de como estas matérias deverão ser abordadas. Refiro-me ao estudo que aquela entidade promoveu para lançar as bases de soluções integradas com eficiência e segurança e que garantam sustentabilidade na mobilidade das pessoas, no caso entre os quatro municípios que compõem a associação, mas naturalmente com reflexos positivos no desenvolvimento económico e social da região.

E este trabalho pode muito bem ser o figurino a seguir para uma solução mais ampla, mais global, uma solução que se adeque às necessidades de toda a região do Minho. E com os actuais condicionalismos de ordem financeira, não me custa admitir que a proposta de solução final possa porventura apontar para a convivência, necessariamente competitiva, entre o serviço directo do comboio Celta e outra ligação com diversas paragens ao longo do seu percurso. E se tal vier a suceder, não ficarei surpreendido se, mais tarde ou mais cedo, as tais razões de ordem económica venham a ser invocadas para condenar pelo menos uma parte da exploração do serviço.

E a propósito de questões económicas não quero deixar passar em claro o pesadelo que estão a viver os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e, afinal, toda a cidade e região. Expresso, obviamente, a minha solidariedade, em particular às famílias que estão a ser vítimas da enorme insensibilidade social de um governo que deveria assumir no quotidiano, passando à prática, o pensamento político dos partidos que o sustentam, ou seja, a matriz fundadora quer da social democracia do PPD/PSD, quer da democracia cristã do CDS/PP.

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