Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Com que qualidade vivemos?

O que nos distingue

Ideias

2010-11-19 às 06h00

Margarida Proença

A medição dos níveis de vida é sem dúvida alguma um assunto importante, mas que normalmente se vê envolvida em debate e polémica. O conceito é ambíguo, e varia muito entre culturas, entre momentos históricos, entre diferentes fases da vida. Na verdade, a qualidade do nível de vida depende de muitos factores diferentes, alguns relacionados com o rendimento e outros não.

Conforme as últimas estatísticas produzidas pela União Europeia mostram, a qualidade de vida depende da qualidade dos serviços de saúde, do acesso à educação, à formação profissional e à cultura. Tem ainda que ver com a garantia das liberdades fundamentais, com o acesso à justiça em tempo útil, ao res-peito por culturas e experiências diversas, o recurso às novas tecnologias, mas depende também do maior ou menor optimismo e resiliência com que individualmente se encarem os problemas do quotidiano.

A multidimensionalidade e a subjectividade do conceito, que parece óbvia, só ficou, apesar de tudo, clara na década de 90. Do ponto de vista económico, tem a ver com o rendimento, ou seja com os bens e serviços que o rendimento individual permite comprar. A informação sobre a distribuição de rendimentos num país dá uma medida das desigualdades existentes, e também aqui a leitura que cada um faz pode ser diversas. Para alguns, tornarão claras as vantagens em estudar mais, em procurar novas oportunidades de trabalho, em desenvolver a criatividade e a adesão ao risco, enquanto outros encontrarão justificação para o roubo e o crime.

Tendo portanto em conta todos os cuidados com a interpretação dos dados, em finais de 2008 16,5% das pessoas na União Europeia estavam em risco de pobreza. Os países do costume - Holanda e a Noruega, mas também a Islândia e a Eslováquia apresentavam os melhores indicadores, entre os 9% e os 11%. No caso oposto, a Bulgária, a Roménia, a Letónia, a Lituânia, mas também a Grécia, tinha um quinto da população, ou mais, em risco de pobreza. Com o mal dos outros podemos nós bem, mas já que gostamos tanto de nos queixar, vale a pena saber que quer a Espanha quer a Itália apresentavam indicadores piores que Portugal no que diz respeito ao risco de pobreza.

O problema é que estas medições transmitem informações que são relativamente estáveis ao longo do tempo. Ou seja, não é de esperar grandes alterações no curto ou mesmo a média prazo, exactamente porque têm a ver com factores que se alteram muito devagar, como por exemplo é o efeito da educação ou da cultura. Impressiona-me sempre que em plena época de profundas alterações tecnológicas, com tudo o que isso implica no mercado de trabalho, os jornais continuem a publicar notícias que pretendem chamar a atenção para a pretensa inutilidade de uma educação continuada.

As desigualdades na distribuição do rendimento são importantes, até porque transmitem percepções individuais sobre o que é “esperável “ ter. Em 2008, e ainda segundo a Eurostat, 20% da população mais rica na União Europeia tinha um rendimento igual a 5 vezes ao das 20% pessoas mais pobres. Em Portugal, a distribuição era ainda menos equitativa; os mais pobres recebiam 1/6 dos mais ricos. Portugal era, aliás, o quarto país com maior desigualdade na distribuição de rendimentos, a seguir à Letónia, Roménia e Bulgária. Vinham depois, a Grécia, a Lituânia, o Reino Unido e a Espanha.

O desemprego é uma situação de risco significativa, uma alteração das condições de base. Por isso é tão importante que seja tido em conta, uma vez que tornam possível um risco de pobreza persistente. Mas também aqui a escolha existe, o optimismo e a capacidade de resistir e inventar novas saídas.

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