Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Com ou contra os portugueses?

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Ideias

2011-12-27 às 06h00

Jorge Cruz

Tradicionalmente, esta é uma época de paz e de solidariedade. É um período de alegria, de amor e fraternidade. É tempo de família, de confraternização e de harmonia. Mas também não deixa de ser um momento de profunda reflexão.

A qual, naturalmente, pode e deve incidir primordialmente nas questões que mais directamente se prendem com a vivência quotidiana de cada um e de toda a comunidade. Por outras palavras, creio que a época natalícia, sendo embora uma quadra de convívio, de partilha e de afectos, não nos pode cercear ou sequer inibir de exercermos um dos direitos inalienáveis que a democracia nos trouxe - a liberdade de expressão, consagrada na nossa Constituição e na Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

Infelizmente, a quadra natalícia, por si só, está longe de ser o lenitivo eficaz para os graves problemas com que nos defrontamos diariamente. Sob esse ponto de vista serve, quando muito, para protelar o anúncio das medidas de grande dureza com que o governo se prepara, tudo o indica, para penalizar ainda mais os portugueses, em particular a força do trabalho.

Acredito que das onze horas de reunião do conselho de Ministros do pretérito dia 18 terão saído importantes decisões sobre as reformas estruturais a realizar em Portugal no próximo ano. O facto de, formalmente, não ter sido aprovado qualquer diploma não se reveste de particular relevância e terá mais a ver com estratégia política do que propriamente com falta de produtividade dos ministros.

Aliás, com a reunião a decorrer apenas há três ou quatro horas, Miguel Relvas veio dizer que o Governo já tinha definido os quatro principais pilares das reformas estruturais a realizar em 2012, adiantando que passam pelo reforço da concorrência e da competitividade, pela articulação entre Estado e economia, pela valorização do capital humano e pela confiança.

Poucos duvidarão que as grandes decisões, sobre estas e outras matérias, estarão já tomadas faltando apenas a apresentação formal, com vista ao seu enquadramento no edifício legislativo português. Mas essa será uma etapa a cumprir no início do próximo ano, depois dos deputados da nação regressarem do período de férias natalícias que actualmente gozam.

Independentemente das medidas que vierem a ser anunciadas, a verdade é que as perspectivas para o próximo ano serão, qualquer que seja o ponto de vista, muito pouco optimistas. Aquilo que o governo apregoou para pôr em prática em 2012, e que em alguns casos vai muito para além das imposições da troika, já é suficientemente penalizador, pelo que se dispensam de bom grado novas acções que infernizem ainda mais o quotidiano dos portugueses.

O discurso oficial tem apontado para o empobrecimento dos portugueses como forma de conseguir o desejado reequilíbrio financeiro do país mas as medidas a implementar não podem permitir que alguma vez a dignidade humana seja colocada em causa.

A perda dos subsídios de férias e de Natal, por exemplo, vai criar sérios problemas a uma boa parte da população, precisamente aquela que tem vindo a perder continuamente poder de compra e que em determinados casos até já se encontra em situação de extrema dificuldade, quando não numa linha abaixo do limiar da pobreza.

O pensamento ultraliberal dominante denota frágeis preocupações sociais e, por vezes, até parece considerar que o principal problema do país são os portugueses. Daí que aponte a porta de saída aos jovens licenciados que estão sem trabalho. Daí, também, que mostre novos rumos, para o Brasil e para Angola, aos professores desempregados ou em vias disso. Que se seguirá? O suicídio para os reformados?

Sem pessoas não é possível erguer um país. Tal como nas empresas, nas sociedades modernas o capital humano assume importância capital. Dispensar a sua experiência acumulada, o seu conhecimento técnico e a sua disponibilidade é um grave equívoco que acabará por ser extremamente prejudicial para o país. Também por essa razão é que, como no mundo empresarial, é fundamental que os dirigentes de um país saibam dirigir, motivar e comunicar objectivos, o que para nossa desgraça nem sempre acontece.

Na sua mensagem de Natal, Passos Coelho parece ter caído finalmente na realidade ao dar alguns sinais de querer corrigir discursos anteriores que apontavam em sentido bem diverso daquele que agora aparentemente defende. 'Uma sociedade que se preza não pode desperdiçar nem os seus jovens nem as pessoas que se encontram na fase mais avançada da sua vida', disse o Primeiro-Ministro.

De facto, o chefe do governo começou por apontar 2012 como 'um ano de grandes mudanças e transformações', garantindo que o objectivo de tais reformas é 'colocar as pessoas, as pessoas comuns com as suas actividades, com os seus projectos, com os seus sonhos, no centro da transformação do país'. Nesse sentido afirmou pretender que 'o crescimento, a inovação social e a renovação da sociedade portuguesa venha de todas as pessoas, e não só de quem tem acesso privilegiado ao poder ou de quem teve a boa fortuna de nascer na protecção do conforto económico'.

O discurso natalício de Passos Coelho rompe com algumas ideias transmitidas anteriormente e vai ao encontro das preocupações manifestadas por largos sectores da opinião pública. Resta agora saber se as suas palavras correspondem a alguma inflexão política ou se são apenas fruto da quadra festiva em que foram proferidas. Ou seja, governar com os portugueses ou contra os portugueses?

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