Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Colossal anormalidade

Junho: mês dos santos populares: a festa restaura a vida...

Ideias Políticas

2019-04-09 às 06h00

Hugo Soares

Em política, nem tudo é anormal e nem tudo é normal. Sei que, a alguns, convém fomentar os equívocos, a confusão propositada, a deliberada ambivalência. O terreno cinzento da ambiguidade dá imenso jeito àqueles que não têm coragem de assumir as suas posições ou as suas responsabilidades. Por isso, julgo que é tão importante clarificar o que é ou não aceitável num regime democrático, o que é ou não normal.
É normal que as nomeações para membros de gabinetes dos governantes se façam de entre as pessoas de confiança política, garantida que esteja a competência técnica nas respetivas áreas em que vão trabalhar. O país tem que perceber isso. Até porque cada um de nós sabe, enquanto cidadão e enquanto pessoa, o valor que atribuímos à confiança nas nossas relações. Nas relações de natureza política não é diferente.

É normal que membros da mesma família gostem e se dediquem à mesma atividade. Vemos isso acontecer em muitos setores da sociedade, seja nas mais variadas profissões, na vida empresarial, nas artes e na cultura, no desporto e em muitas outras áreas. É natural que isso aconteça, muitas vocações nascem e forjam-se pela proximidade e pela familiaridade.
É normal que possam coincidir pessoas da mesma família num governo. Não é a primeira vez que tal acontece, como nas últimas semanas ficou bem exposto aos olhos de toda a gente. E neste caso, quem diz no governo, diz também nas cúpulas partidárias, no caso daqueles partidos que nunca estiveram no governo.
Tudo isto é, para mim, normal e imagino que o seja também para a maioria dos portugueses.

O que não é normal é a quantidade de nomes e relações que se se verificam no atual governo socialista. Mais de três dezenas?! Em lado algum do mundo isso pode ser considerado um acaso, uma exceção ou uma coincidência.
O que não é normal é a perceção de que há uma teia de interesses que visa a "empregabilidade" de boys e girls no governo e em altos cargos da administração pública a um nível generalizado. Entre esta multidão de laços de família ou de amizade, aqueles que estão lá por indesmentível competência e adequação de perfil acabam por ir na mesma enxurrada de suspeição de favorecimento. O que é injusto para esses e para quem os escolheu.
O que não é normal é o despudor com que o Partido Socialista faz todas estas escolhas, demonstrando uma estreita e muito provinciana rede de escolhas. Parece que a mundividência socialista se esgota no quintal lá de casa. A um partido com a vocação e o exercício do poder como é o PS exige-se vistas largas e abertura de horizontes, não este fechamento tacanho e redutor sobre si mesmo.
O que não é normal é a insensatez de considerar tudo isto normal, a começar pelo primeiro-ministro que é o primeiro res- ponsável por isto acontecer a esta escala.

António Costa não pode fazer de conta que o seu próprio governo altamente endogâmico se constituiu nas suas costas ou por geração espontânea. Não. Ele sempre esteve a par de tudo, permitiu e quem sabe até fomentou este circuito fechado do poder. Não pode é dizer, primeiro, que não vê nada de anormal nisto, e muito menos pode, depois, atirar as responsabilidades da resolução deste colossal problema para terceiros.
O combate a esta miséria moral deve ser feito sem qualquer populismo. Não é na legislação, ou melhor, na verborreia legislativa, que se encontra solução para isto. Há que terminar de vez com esta ideia que, perante um caso concreto e por efeito da mediatização de um assunto, a feitura de uma lei resolve o problema. Não resolve, mascara-o! Tem razão Rui Rio: é no bom senso que reside a prevenção e a solução destes casos. No bom senso e na ética de quem governa. E é justa- mente para separar (e agitar) as águas que existem as eleições. Porque águas paradas dão nisto: num pântano.

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