Correio do Minho

Braga, sábado

Coexistência de formatos comerciais

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2010-12-14 às 06h00

Jorge Cruz

Assinalou-se há dias, no final da passada semana, um quarto de século sobre o surgimento do primeiro hipermercado em Portugal. Desde então, nestes últimos 25 anos, foram criadas mais 74 unidades com a mesma tipologia.

Os dados disponíveis, e que foram divulgados pelo JN, mostram que neste período de tempo o comércio tradicional perdeu mais de 70 por cento da sua importância, tendo encerrado cerca de 24 mil lojas. Em claro contraste, e a fazer fé na informação facultada pela Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, nestas duas décadas e meia a facturação dos hipermercados atingiu os 3,2 mil milhões de euros. Ou seja, numa análise que tenha por base a facturação global, constata-se que o peso dos hipermercados no mercado nacional é de 25 por cento, percentagem que, no entanto, é largamente ultrapassada pelos 46 por cento dos supermercados.

Acontece, por isso, que o peso de 86 por cento com que o comércio tradicional liderava em 1985 baixou para os actuais 12 por cento, percentagem que é considerada dramática e muito penalizante para muitos empresários do sector. De facto, o ramo da alimentação foi quase completamente aniquilado pelos hiper e supermercados, e as restantes áreas exploradas por pequenos comerciantes foram fortemente abaladas pelas grandes superfícies especializadas e pelos centros comerciais.

Creio, no entanto, que será abusivo concluir-se que a perda registada pelo comércio tradicional se deve exclusivamente à chegada das grandes superfícies. Face à abertura política e económica do país e ao sucesso que os novos modelos de comércio registaram na Europa, o seu aparecimento em Portugal era uma inevitabilidade que não poderia ser ignorada. Mesmo assim, inicialmente o comércio tradicional não se preparou convenientemente para a convivência pacífica com os novos formatos, bem pelo contrário, nalguns casos chegou mesmo ao cúmulo de baixar os braços, assumindo uma certa impotência para competir com os novos e mais bem preparados concorrentes.

É claro que se pode falar em luta desigual, em desequilíbrio de oportunidades e até na forma desregulada como muitas das novas unidades foram criadas e que levaram à situação de desproporcionalidade que se verifica em alguns centros urbanos. Aliás, segundo o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, existem actualmente mais de quatro milhões de metros quadrados de grandes superfícies, o que é factor de desequilíbrio entre o comércio de rua e o novo modelo.

No entanto, e apesar da desproporção, é óbvio que há lugar para todos os formatos de comércio até porque qualquer deles tem virtualidades e defeitos, aspectos positivos e negativos, enfim, todos eles têm os seus adeptos e os seus adversários

Claro que as debilidades dos pequenos estabelecimentos comerciais, as chamadas lojas de rua, são imensas. Desde logo porque em alguns sectores os novos formatos de comércio acabaram com o esquema clássico de circulação do produto, desde o fabricante até ao consumidor final, e que passava pelo grossista e, naturalmente, pelo pequeno comércio. Daí que, para a sua preservação, também se imponha maior atenção por parte das autarquias, designadamente ao nível do urbanismo comercial e das condições de apoio que pode oferecer - estacionamento, iluminação, limpeza e segurança.

Mas a questão nuclear para a sobrevivência de todos os formatos de comércio tem a ver, em primeiro lugar, com a capacidade económica dos consumidores que, como se sabe, está longe de ser famosa. O rápido desenvolvimento dos hipermercados correspondeu a uma alteração do consumo dos portugueses, através de uma maior apetência pela aquisição de bens então potenciada pelo aumento do seu rendimento. A situação hoje em dia diverge claramente desses tempos e revela-se através da diminuição das compras e da opção pelos produtos mais económicos.

Depois, está também relacionada com questões de implantação e de funcionamento e, nesse particular, é fulcral existir um planeamento e uma regulação cuidados, que tenham em conta as reais necessidades dos cidadãos mas que também acautelem as salutares regras da concorrência. Pensar o comércio, todo ele, quer se trate do chamado tradicional ou de rua quer do moderno, é também pensar a cidade, o seu pulsar, enfim, a sua vida. É evitar a crescente desertificação dos centros históricos, é perceber a verdadeira importância da actividade comercial.

Finalmente, prende-se com a capacidade de inovação e de oferta dos diferentes formatos de comércio, das propostas que as empresas são capazes de oferecer aos consumidores, da maior ou menor atractividade com que se apresentam. Felizmente que uma boa parte do denominado comércio tradicional percebeu os desafios que se lhe colocam e já se modernizou, adoptando as técnicas de venda mais inovadoras. Por outro lado, surgiram as lojas de rua de grandes cadeias, umas vezes sob a forma de franchising, outras propriedade de grandes cadeias internacionais.

Uma certeza existe: desde o aparecimento do primeiro hipermercado em Portugal muita coisa mudou na actividade comercial. O equilíbrio entre os diferentes formatos e inclusivamente a sobrevivência de todos eles depende, em última análise, de todos nós, consumidores. Nesta como em tantas outras matérias somos os verdadeiros e decisivos juízes. Mas fica perfeitamente claro que a coexistência é possível e desejável.

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