Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Coelho e Cavaco: os inimputáveis

A pretexto de coisa alguma

Ideias Políticas

2015-03-10 às 06h00

Pedro Sousa

Os episódios políticos dos últimos dias, nomeadamente os protagonizados por dois dos mais altos magistrados da República Portuguesa - Pedro Passos Coelho, Primeiro-Ministro de Portugal e Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa - estão ao nível do que de pior há na vida pública do nosso País.

Um Primeiro-Ministro que, reiterada e repetidamente, incumpriu com as suas obrigações, quer ao nível da Segurança Social, quer ao nível do IRS é, pela sua gravidade, algo difícil de qualificar, sendo que, importa dizer, que em qualquer País moderno e exigente em relação à qualidade da sua democracia, tal facto daria lugar, na hora, à sua demissão ou, se lhe faltasse a vergonha (como é o caso), à sua exoneração pelo Presidente da República.

Claro que para isso seria necessário que tivéssemos Presidente da República, algo que Portugal não tem desde o já longínquo ano de 2006, ou seja, desde que o Professor Cavaco Silva assentou praça em Belém.

Mais grave, o facto de Passos Coelho, ter tomado conhecimento das suas dívidas em 2012, quando já era Primeiro-Ministro (e tinha, ao contrário do que disse, condições financeiras para resolver os seus compromissos; a não ser, claro, que andasse a viver acima das suas possibilidades...) e só, em 2015, após ser confrontado com perguntas incómodas de um jornalista, ter decidido pagar aquilo que deveria ter liquidado havia muito tempo.

Mesmo sabendo que era um cidadão incumpridor, ardiloso e mesquinho, Pedro Passos Coelho, durante esses três anos, arvorou a sua superioridade moral face aos Portugueses, acusou tudo e todos de andaram a viver acima das suas possibilidades, despejou, imagine-se, muitas famílias honradas e trabalhadoras por dívidas muito mais pequenas e insignificantes do que as suas, assobiando para o lado, tentando que à medida que disparava contra tudo e contra todos, como alguém zangado com aqueles que jurou defender, a suas dívidas, o seu esquema, se perdesse na esperança de não mais ser encontrado.

Num tempo de enorme descrédito da política portuguesa, em que mais de 70% dos jovens diz não confiar nos políticos, urge devolver a política aquilo que ela deve e tem de ser. Um exercício de cidadania que exige frontalidade, firmeza, coragem, transparência, clareza e que, hoje mais do que nunca, não pode pactuar com tibiezas, com meias palavras, com rodeios, tergiversações, subterfúgios e receios e outras coisas afins.

A política precisa de se reencontrar consigo mesmo e como um espaço de construção e tomada de decisões de inspiração geral e abstracta, que visem, sempre, defen- der e promover o interesse público e nunca, ao contrário do que tantas vezes tem acontecido, como o repositório de escolhas particulares e concretas que acabam, com o dinheiro de todos, por beneficiar apenas alguns. Às vezes, há crises que são verdadeiras oportunidades em potência.

Esta situação de Passos Coelho era, claramente, um desses casos. Bastava, para isso, que Cavaco Silva tivesse sentido de estado, percebesse que é a credibilidade do regime e a credibilidade das instituições que está em causa e agisse, sem meias medidas, de forma imediata e adequada exonerando o Primeiro-Ministro incumpridor.

Cavaco não o fez. Aliás, confundindo mais uma vez o seu papel com o de Presidente do PSD, disse que a situação que envolve o Primeiro-Ministro é, meramente, uma questão político-partidária, facto de enorme desfaçatez e gravidade atroz. Mas Cavaco fez mais; no afã de abafar a questão e de ocupar espaço mediático de forma a cumprir esse desiderato, apressou-se a pronunciar-se sobre o perfil que deve ter o próximo Presidente da República, esquecendo-se que hoje a grande maioria dos Portugueses sabem bem quem querem para o próximo Presidente da República alguém que esteja nos antípodas do Professor Cavaco Silva, um verdadeiro “cavaquinho amestrado” nas mãos de Passos e companhia.

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