Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Clubite & Clorite

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-04-20 às 06h00

José Manuel Cruz

OMónaco devolverá o preço dos bilhetes aos afiliados que suportaram a vergonha no Parque dos Príncipes. Enfim, compreende-se, uma espécie de serviço mal prestado, passível de indemnização, como fuga de água que ressurge e à qual canalizador atamancado não é capaz de dar boa solução, embora se tenha feito pagar pelo serviço. Enfim, talvez não se compreenda, uma vez que os assuntos de bola são animados de um certo cariz aleatório. Não aceitar derrotas de um para sete, revoltar-se contra um desafio mal disputado, contra uma pálida imagem em terreno de jogo, é como querer cobrar ou pedir explicações à Natureza pela ocorrência de um sismo de magnitude dez: acontece, provoca destruição e infunde dor. E que lições tire, quem quer ou quem saiba construir melhor, com outros materiais e estrutura, eventualmente noutro local.
As derrotas copiosas, os passos arrastados de onze espantalhos pelo terreno de jogo, a total ausência de comando oriunda do banco, marcam inflexões de uma curva evolutiva, constituem pontos de viragem, que a colectividade perceberá ou não, que adoptará ou não. Por norma, as coisas encarreiram de novo, ainda que nada se faça, pelo simples concurso de ajustamentos inconscientes, entranhados na orgânica elementar.
É o que o Sporting parece estar a fazer, agora, de Bruno com a viola no saco, ausente, de fralda e biberão de sentinela ao berço da filha. Os melhores augúrios para a criança, e que inunde o pai babado de alegrias. Que os resultados tudo mudam, diz-se por aí, imaginando-se um Sporting finalista da Taça e em segundo da tabela classificativa, à custa das desgraças da águia Victória. É bem possível, é bem plausível o resgate do arruaceiro, uma vez que o futebol é mesmo para homens de punho afiado, cuspo pronto e palavra volátil.
Louva-se e acusa-se o homem por ser presidente-adepto, pelas responsabilidades que ilude ou alija de cada vez que abre a boca. Pois pior está a bola portuguesa com as falhas gravosas do VAR. Compreende-se que um presidente de cabeça perdida diga cobras e lagartos, que um árbitro erre em cima de lance evanescente, mas menos se aceitam juízos tendenciosos de quem vê a jogada, uma e outra vez, e pega por milímetros, por faltas de encosto, ou de mão sobre o ombro, cuja intensidade é passível de interpretação. Ou bem as vê, a outras, e ignora-as, por divina revelação do resultado desejado.
A montanha pariu um rato, é o se me oferece dizer, agora que consta que o ataque químico foi executado com cloro. Como é, o Assad bombardeia de bisnaga e balões de cloro vivo arremessados a catapulta? Mas estamos na guerra do Solnado? A menos que outra seja a boa história, senão vejamos: após o ataque de 2017, os ganhos bolsistas da Raytheon, Northrop, Lockheed, Boeing e General Dynamics, ascenderam a 5MM em um só dia, por contas da «Fortune». E, se em 2017 a Raytheon maternidade dos misseis tomahawk , progrediu míseros 1%, pois desta feita saltou mais de 4% em um só dia. Aliás, acumula um ano de ganhos, adubados por boa retórica, tendo valorizado mais de 70MM, e muito se especula sobre a fatia dos proventos bolsistas do accionistaTrump. Ora quanto não rende, a destruição de uma drogaria com bidões empilhados de lixivia! Santo Deus! Não está na hora de arejarmos os ouvidos? Mas porque cargas de creolina haveria o Assad de mandar bombardear um bairro de onde haviam partido, dias antes, comboios de autocarros?
É das tácticas elementares do cerco vencer pelo desgaste, pelo corte de abastecimentos, pela privação de água e mantimentos. Quem sitia tem vantagem táctica imbatível. Pior, as imagens que passaram ad nauseam, de um jovenzito a ser mangueirado e de uma criancinha a ser enxofrada com bombinha respiratória, são tão incompatíveis com a histeria que se fez, que eu honestamente não compreendo.
Aceito, simultaneamente, que não compreendam a minha incompreensão. Na vida, nos actos mais rudimentares do quotidiano, partimos sempre animados de preconceitos viajamos para descobrirmos o que já sabíamos. Louvamos o que normalmente se louva, denegrimos o que sempre se viu como podre. O facto, porém, é que não caminhamos para melhor, e não vejo que nos anime o arrojo de invertermos trajectória. Poderia o Assad e seus exércitos ter cometido as maiores atrocidades? Que sei eu?! Sim, eventualmente. Parto, no entanto, do pressuposto de que a insurreição síria foi artificialmente provocada, e que o conceito de democracia representativa e pluripartidarismo, como o realizamos na Europa, é pouco praticável na Síria, como na Arábia Saudita ou na Turquia, e tão queridas que estas são aos sobrinhos do Tio Sam.
No caso presente: pode alguém acusar o governo sírio de uso indiscriminado de agentes neurotóxicos, que depois são águas fortes, que qualquer MacGyver pode fazer saltar, assim tenha um carrinho de drugstore bem fornecido e um canivete suíço?
Uma dúvida inquietadora me fica: não estaremos nós, individualmente, a ser vítimas de uma guerra química, de uma comunicação que nos paralisa as sinapses, que nos enche os neurónios de mercúrio? Quem nos liberta dos libertadores? Vou, que tenho umas roupinhas para pôr a corar.

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