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Braga, segunda-feira

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Cinzas de um nada

A lampreia na Escola, uma aluna especial!

Cinzas de um nada

Ideias

2020-05-29 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Um dia não falaremos do vírus. Desta forma pública, quer dizer, com óbitos e infectados ao dia, com incidência por regiões – e aplausos ao bichinho por ter abanado o imobilismo do centrão, sabidamente anti-regionalista.
Um dia regressaremos às nossas vidas e os virologistas aos seus simpósios, painéis e comunicações, em tandem com um pequeno turismo de qualidade, que merecerão. Falarão de morcões e de febres, entre eles, sabendo cada uma das sumidades que ninguém lhe liga pevide, confissões que, entretanto, ninguém partilha. Haja decoro!

Um dia não teremos mais que aturar a litania das mãos lavadas e da distância de segurança, profilaxia que há de valer para males incontáveis. Um dia não teremos mais quem nos levante o dedo, por conta de máscara execrável que teimemos em não envergar, em notório desrespeito do décimo primeiro mandamento de um endeusado. Bezerros, que fáceis são de levar a altar.
Bicho que emolduraremos de anonimatos, um dia, mortes que por aproximação serão registadas em certidões oficiais, em curvas e histogramas do INE. Farmacopeia que apuraremos, entrementes, respondendo uns bem, outros nem por isso, como de cancro há quem recupere, contra a mágoa que noutra família se instala.

Um dia, sim, seremos brindados com estudos e relatórios que compararão ou diluirão os óbitos do primeiro semestre de 2020. Ficaremos a saber, então, quão mórbidos foram estes meses, se a diferença é estatisticamente relevante, ou se mais foi a agitação e o ruído, por desconto de marimbice e razões atrasadas, sendo que, como sói acontecer, a dado ponto perdemos colectivamente o equilíbrio, a capacidade de reverter reactores.

Sim, um dia falaremos de tudo isto no passado, e até talvez nos riamos de muito que pequenas sumidades debitaram por panaceias e normativos, relativamente a creches, à misericórdia de presos visitar e de anciãos confortar. Talvez nos riamos da semaforização das praias, da indumentária dos nadadores-salvadores, do estado da arte quanto à reanimação de afogados, sendo que os boca-a-boca nem lembrar. Voz ao ridículo: quão menos pode chegar a valer uma vida no imediato, por comparação com uma ameaça hipotética, passível de tratamento na esmagadora maioria dos casos, e de residual mortalidade, pelo pior dos desfechos?
E nós que ainda não estamos nesse dia! Especialistas haja que perigos agitem com vivacidade estatísticas de um para cem mil, ou milhão, proporções que tomo arbitrariamente. E assim me pergunto: e temos de ouvi-los, horas a fio, sem contraditório ou filtros, sem racionalizadores, sem inversão de quocientes? E ele é uma segunda vaga, senão para o Outono, para o Inverno, e ele é a mais que segura evidência de que da segunda correrá pior, a quem bem correu da primeira… Se os profetas não se vedam, porque é que não há quem os vede por cautelar providência?

Quão socialmente saudáveis são as comunidades em que acontece um caos desta magnitude? Onde estavam os grandes estadistas em Fevereiro? Ao fim e ao cabo, estamos preparados para quê? Para jogos florais? Para guerras virtuais de alecrim e manjerona? Cultura e sucedâneos de concurso televisivo ou de reality show, cultura e propagandas, espírito crítico e comportamento acéfalo das moles. Valha-me deus: e eu que cria que Gustave Le Bon estava perfeitamente incorporado, como vacina.

Cansa-me que a racionalidade seja referida como apanágio de uma minoria, que as massas careçam de cão pastor, de guia espiritual. E azucrina-me que, na turba, por defeito, me assimilem aos que precisam de ser conduzidos. Um balido.

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