Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'Cinco anos: o Carlitos vai para a Escola', por Ramiro Costa

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2011-07-24 às 06h00

Escritor

Já lhe tinham dito que o filho era muito novo para entrar para a escola. Ia fazer seis anos, nesse ano, no dia 17 de Dezembro. E, como fazia anos depois de quinze de Setembro, não era obrigada a matricular o filho. A própria educadora lhe tinha dito que o Carlitos era uma criança esperta, mas que lhe parecia um pouco infantil. Ainda gostava muito de brincar. Ao que a mãe respondeu:

- Ele está na idade da brincadeira. Se não brinca agora, quando é que há-de brincar!
A educadora calou-se. Parece que percebeu que havia alguma resistência da mãe em aceitar que o seu filho ainda era muito novo para entrar para a escola. A mãe ia conversando com as pessoas, umas vezes em relação à matrícula do filho no 1º ano, outras vezes de outros assuntos que sempre trazem os pais preocupados. Numa dessas conversas, uma mãe, na altura de ir buscar os filhos ao jardim, ainda lhe disse:

- Mas se a educadora acha que o teu Carlitos ainda é muito novo, porque é não o matriculas só no próximo ano?
- Nem pensar! - respondeu a mãe - E deixava o grupo de amigos com quem já anda desde os três anos! Não, isso não.
O tempo ia passando e o dilema ia-se instalando na cabeça daquela mãe. Se não matriculasse o filho na escola nesse ano, ele ia separar-se do grupo de amigos do jardim com quem andava desde os três anos. Se matriculasse o filho nesse ano, lá continuava com o grupinho, o que era muito bom para ele mas, como a educadora lhe tinha dito que era muito infantil, poderia ter problemas nas aprendizagens da escola. A opinião do marido era igual à sua: devia matricular o filho na primária para não se separar do grupo da pré.

Um dia, por acaso, encontrou uma professora do 1º ciclo, sua conhecida, e colocou-lhe a questão.
A resposta não foi muito diferente da da educadora. Se o Carlitos era assim tão infantil e só fazia anos em Dezembro, possivelmente só teria a ganhar se não se matriculasse nesse ano na primária e o fizesse só no próximo ano. E acrescentou:
- Olhe que na Finlândia, país de referência na educação para Portugal, as crianças só entram para a escola aos sete anos. Mas era uma boa ideia falar com um psicólogo que está mais por dentro dessas questões.

A mãe, que esperava que a professora a aconselhasse a matricular o filho na escola, não ouviu a resposta que queria. E aquela de ir ao psicólogo, ainda veio agravar mais a situação. Para ter uma consulta de psicologia no Centro de Saúde, já não ia a tempo porque estas consultas eram muito demoradas. Para ir a um psicólogo particular que, possivelmente faria uns testes ao Carlitos, seria necessário mais do que uma consulta e teria que pagar do seu próprio bolso.

O tempo ia passando e tinha que tomar uma decisão. Tinha a opinião favorável do marido e gostava que o seu filho continuasse com o grupinho da pré. E decidiu-se. Decidiu matricular o Carlitos nesse ano. Ia continuar com o grupinho. Ia entrar na escola com cinco anos e só faria seis em Dezembro. Tinha esperança que o filho se saísse bem.

Começaram as aulas em Setembro, a primeira conversa com a professora, a compra dos livros, a adaptação à escola, algumas regras, diferentes das do jardim, e a pouco e pouco, alguma exigência. No mês de Outubro já se aprendia na escola as primeiras letras e os primeiros números.

Decidiu falar com a professora. Esperou um dia, no fim das aulas, e perguntou-lhe:
- Então, senhora professora, como é que vai o Carlitos?
- Ainda é muito cedo para falar, ainda estamos no início do ano. - disse a professora. - O Carlitos é uma criança simpática, bem educada, mas não liga muito às aulas, distrai-se com facilidade e gosta muito de brincar. Gosta muito de trabalhar com plasticina. Se pudesse, ficava horas e horas a brincar com plasticina. Já começamos a dar as primeiras letras e ele faz um pouco de confusão. Mas, com lhe disse, ainda é muito cedo.

A mãe ficou bastante preocupada. Esperava que o seu menino aprendesse bem, mas com a opinião da professora, ia perdendo as esperanças. Mas ainda havia alguma esperança, uma réstia, pelo menos: o ano estava a começar e, como a professora dizia, ainda era muito cedo.
Em casa tentava ajudar o filho, mas depois de um dia de trabalho e da vida doméstica, não era nada fácil. Apercebeu-se também da falta de interesse do filho pelas tarefas escolares, da confusão que fazia com as primeiras letras, da dificuldade que tinha em juntar as letras para fazer palavras.

O tempo foi passando, Novembro chega num instante e a mãe decidiu falar novamente com a professora. Esperou o fim das aulas e quando a professora ia a sair, voltou a perguntar-lhe:
- Então, senhora professora. E o Carlitos, que tal?
- Até foi bom encontrar a senhora. Por acaso, gostava de falar consigo. O Carlitos está com algumas dificuldades. Tem dificuldades nas letras que já demos, faz alguma confusão e algumas vezes não quer realizar as tarefas. Diz que está muito cansado. Procuro motivá-lo, mas ele não me liga muito. Sabe: acho-o muito infantil.

O diálogo continuou. A mãe desiludida com o filho na escola, a professora a pensar se não tinha sido demasiado cedo para falar assim do Carlitos. Mas o que se passava na sala de aula era exactamente o que descrevia à mãe.

Despediram-se. O Carlitos deu a mão à mãe e lá foram. Abriu a porta de trás do carro, o filho entrou, sentou-se na cadeirinha, a mãe apertou o cinto e fechou a porta de trás. Entrou no carro e disse baixinho: “Razão, tinha a educadora a dizer que era muito infantil! E a professora que até falou da Finlândia. Mas o grupinho da pré …”

- Que é que estás a dizer, mãe? - perguntou o Carlitos.
- Nada, meu filho, nada. Estava a falar com os meus botões.




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