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Cidadãos não são dados estatísticos

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Cidadãos não são dados estatísticos

Ideias

2019-11-19 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“Hoje em dia as cidades necessitam de ter políticas activas na promoção e retenção do talento, e Braga está empenhada em criar um hub internacional de talento, para atrair novas cidades para esta iniciativa mas também para potenciar o tecido económico de Braga e todo o talento existente na cidade". A afirmação pertence a Ricardo Rio e, segundo a Imprensa, foi proferida há dias na África do Sul, na sessão do Global Parliament of Mayors, que reúne autarcas de todo o mundo.
Creio que a intenção manifestada pelo presidente da Câmara perante os seus congéneres estrangeiros é altamente meritória. Adoptar políticas activas na promoção e retenção do talento será extremamente positivo, quer para a cidade quer para a região envolvente, sendo por isso de saudar o repentino e surpreendente anúncio do edil bracarense. Esperemos é que não se trate apenas de mais um daqueles desígnios que Ricardo Rio esporadicamente anuncia, quer internamente quer no exterior, mas que depois se constata não passar de uma mera notícia falsa.

Percebe-se a forte aposta do edil de Braga na mediatização da cidade, aposta que naturalmente se aplaude. É óbvio que, para além dos ganhos políticos pessoais, provavelmente o objectivo que faz mover Ricardo Rio, uma tal política pode resultar em benefícios enormes para a economia local e regional, como será disso um bom exemplo o sector do turismo. Mas – lamento dizer que esta conjunção adversativa está sempre presente -, por muito que se preocupe com a imagem exterior da cidade, por muito que invista na adesão a organizações internacionais e por mais que procure expor a sua costela cosmopolita, um presidente de câmara tem a obrigação de dar sempre prioridade aos problemas que mais directamente afectam os seus munícipes. Não pode, como acontece com demasiada frequência com Rio, esquecer o território de cuja gestão é politicamente responsável.

Para além dos aspectos negativos que se reflectem no quotidiano dos seus conterrâneos, os quais naturalmente se sentem ludibriados pelos sucessivos incumprimentos do edil, sobressai a questão frequente de o discurso no exterior não corresponder por inteiro às realidades locais, o que, também para os eventuais visitantes, acabará por corresponder a um logro. Ou seja, o presidente da Câmara não pode, permita-se-me a expressão, pintar lá fora – já agora, a nível interno também o não deve fazer – um quadro que a realidade se encarrega de desmentir.

E a verdade é que um qualquer visitante que chega à capital do Minho até pode ficar extasiado com o riquíssimo espólio monumental da cidade, inclusive pode deslumbrar-se com a apreciada gastronomia que Braga tem para oferecer, mas certamente não deixará de notar, por exemplo, o estado calamitoso em que se encontram muitas das vias urbanas por onde é obrigado a circular. E também sofrerá, em perfeita sintonia com os munícipes e com os automobilistas habituais, as agruras de um trânsito absolutamente caótico que é consequência da terrível conjugação entre a inexistência de uma verdadeira política para o sector e uma gritante ausência de fiscalização.

Não ignoro que o marketing e a comunicação são instrumentos essenciais na actividade política, mas também sei que por maiores que sejam as apostas nas acções propagandísticas, e em Braga essa é uma realidade indesmentível, hoje em dia a tarefa está dificultada porque os destinatários estão mais atentos e menos acríticos. Também por essa razão, o provérbio “com papas e bolos se enganam os tolos” começa a cair em desuso, mesmo na versão bracarense das festas e festinhas…
E é igualmente por isso que muitos dos “estudos” e “rankings” são recebidos com crescente desconfiança e apreensão pois já todos perceberam, principalmente numa era dominada pelas chamadas “fake news”, que hoje em dia a manipulação assume formas e rostos diversos.

A consciência cívica e política dos bracarenses, e não só, deve dizer-se, tem vindo a reforçar-se, num processo de densificação que acabará, mais cedo do que tarde, por operar grandes transformações na sociedade portuguesa. E seria bom que os políticos entendessem os sinais que têm vindo a ser dados, que apreendessem a mensagem enquanto é tempo.
Creio que neste contexto fará todo o sentido trazer à colação um excerto do último artigo de Tolentino Mendonça a propósito do Dia Mundial dos Pobres: “os pobres não são dados estatísticos, nem abstrações: são seres humanos que precisam de outros seres humanos. De facto, uma atenção afetuosa, um olhar onde o preconceito e o medo foram substituídos pelo reconhecimento do outro e pela compaixão, constituem muitas vezes o princípio de uma história diferente”.
Com a devida vénia ao poeta-cardeal, a minha proposta consiste em alargar os destinatários, estendendo a todos os cidadãos esta preocupação.

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