Correio do Minho

Braga, terça-feira

Cidades inovadoras: não a jogos de soma nula

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2017-11-24 às 06h00

Margarida Proença

As pessoas gostam de fazer rankings, e de ver os rankings - há para todos os gostos. A lista das melhores escolas, das melhores universidades, dos melhores hospitais, dos medicamentos mais eficientes, das empresas mais amigas dos seus trabalhadores, dos investigadores que publicam mais, das empresas que mais vendem, das que pagam salários mais elevados, dos países mais competitivos, das pessoas que vestem melhor, dos livros mais vendidos, etc, etc. Para todos os gostos, e claro, com base em critérios diferentes, e permitindo mesmo, se tal for o objetivo, demonstrar a superioridade, ou a vaidade, seja de quem for.

Um desses rankings é o das cidades mais inovadoras, publicado pela Global Innovation Agency, pelo menos desde 2007. O último ranking publicado foi de 2016-17, e lista 500 cidades; todas elas são analisadas com base também no seu potencial inovador. São ainda classificadas de acordo com quatro tipologias: cidades no topo, inovadoras em múltiplos setores; cidades inovadoras em segmentos chave; cidades competitivas em termos globais, e finalmente cidades que revelam um percurso tendencialmente inovador ou são influentes, e utilizados 162 indicadores, incluindo culturais.

Nas 20 primeiras, estão listadas sete cidades europeias: Londres, que é logo a primeira de todas, Paris (9.ª), Viena (10.ª), Amsterdão (12.ª), Barcelona (13.ª), Munique (15.ª) e Berlim (17.ª). Nesse grupo de 20 cidades, todas classificadas como cidades inovadoras em múltiplos setores , estão como seria de esperar, Nova Iorque, Tóquio, São Francisco, Boston, Los Angeles, Dallas, Atlanta, e Chicago, mas também Singapura, Toronto, Seul, Sidney e Montreal . Mas há mais cidades europeias, todas com a mesma classificação global - Madrid, Milão, Estocolmo, Copenhaga, Oslo, Frankfurt, Hamburgo, Manchester, Helsinquia, Roma, Dublin e Praga em 53.ª. Pequim aparece em 30.º lugar, Shangai em 32.º e Hong Kong em 35º.

Lisboa vem ordenada em 73.º lugar, identificada como uma cidade inovadora em segmentos chave, portanto , digamos, já na segunda divisão. Já fora das 100 cidades do topo, aparecem mais duas cidades portuguesas - o Porto em 138.º lugar, e Guimarães na 450.ª posição revelando um percurso interessante. Tantas, tantas cidades europeias estão antes… Durante os dois anos em que vivi em Macau, no início da década de 90, atravessava a fronteira, a pé, e ia a Zhuhai ver a China milenar, as gaiolas com as cobras para sangrar e beber o sangue que tanto bem, diziam, fazia a múltiplas doenças, onde centenas de bicicletas cruzavam as ruas quase sem carros…

Zhuhai vem agora ordenada em 372.º lugar, como uma cidade competitiva em termos globais.
Claro que se pode questionar esta ordenação e fazer outra, de forma a que o rio da minha aldeia seja o melhor e o mais belo, porque é o rio da minha aldeia, como diria Pessoa. Mas em termos objetivos, face a um futuro que anda a uma velocidade incrível, em que um número de cidades cada vez maior, por todo o mundo, investem parte significativa do seu futuro económico em redes de inovação, na criação de amenidades e na atração de talentos, responder apenas a vaidades pessoais ou bairrismos locais, pior que tonto ou provinciano, é errado.

Claro que se podem manter abordagens tradicionais no processo de tomada de decisão ao nível urbano, defendendo pura e simplesmente ações de marketing do tipo “o meu produto é melhor que outro”, e “se não estás por mim, estás contra mim”, em vez de desenvolver estratégias eficazes, compreensivas, que suportem a inovação, o empreendedorismo, sinalizando o processo com base em metas passíveis de ser atingidas, definindo objetivos realmente capazes de ser obtidos em termos culturais e ambientais, colaborando e incentivando práticas de rede, cooperação e colaboração.

Olhando para o ranking das cidades mais inovadoras, para a enorme quantidade de indicadores utilizados para a sua elaboração, torna-se por demais claro que o Porto não teve, nunca, qualquer hipótese de ganhar a candidatura no que respeita à Agência Europeia de Medicamentos. Parece que os edifícios propostos foram chumbados em quase todos os requisitos técnicos, mas seguramente nem terá sido isso o mais importante. Provavelmente nem a distância de facto - as ligações aéreas do Porto fazem-se principalmente com cidades com importância no quadro da nossa emigração. Entre o Porto, com sua 138.ª posição, e Amesterdão em 12.ª há uma diferença enorme. Mas dir-se-á - foi bom concorrer, marcou-se uma posição. Não. Serviu apenas para tornar claras as diferenças. Só terá valido a pena se não se perder a oportunidade de marcar, de forma objetiva, o caminho que importa fazer. Ainda que se tenha já andado muito, não é essa a questão. Nunca é.

No entanto, é preciso sermos claros. O objetivo que todos queremos de maior inovação, melhor ambiente, mais capacidade de atração de talentos, rendimentos mais elevados, qualidade de vida, melhor educação, etc., não pode ser obtido à custa de jogos de soma nula. Tirar de Lisboa uma agência estabelecida, com anos e anos, recursos humanos sofisticados e competentes, e pura e simplesmente colocá-la no Porto - ou noutro sítio qualquer - com menos vantagens competitivas e com custos elevados, não é o caminho. O que é importante para o país, e o que se deve aos impostos que todos nós pagamos, é que criem novas oportunidades e se potenciem as existentes.

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