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Cidades Centradas nas Pessoas

Por uma responsabilidade individual de protecção mais inclusiva

Cidades Centradas nas Pessoas

Ideias Políticas

2019-12-17 às 06h00

Pedro Sousa Pedro Sousa

As teorias sobre o desenvolvimento das cidades são, felizmente, campo fértil para muita discussão e para muita investigação, sobretudo desde a década de oitenta do século XX, anos a partir dos quais a temática ganhou centralidade.
Se, há uns anos, as teorias de Richard Florida, economista americano e autor na área do Urbanismo, sobretudo sobre a temática da Economia Urbana, íam marcando o debate e centrando-o em torno dos prós e dos contras daquilo a que chamava “As Cidades Criativas”, hoje a maioria das teorias sobre esta matéria convergem muito na ideia das Cidades Centradas no Humano, centradas nas pessoas.

Actualmente, pensar o desenvolvimento das cidades, impõe inevitavelmente discutir tecnologia, aplicações, desmaterialização, serviços digitais, sensorização e muitas outras dimensões, às quais, pelo impacto que têm na qualidade de vida das pessoas, é absolutamente impossível fugir. Destarte, é muitíssimo interessante verificar que todas as principais teorias do desenvolvimento das cidades não hesitam, nos dias de hoje, em colocar as pessoas no centro do desenho futuro das mesmas, assumindo, sem rodeios, que as pessoas devem ser, sempre, a única medida possível da tecnologia.
Human-Centered Cities. Cidades Centradas nas Pessoas é o conceito que hoje mais marca o debate nesta matéria, assumindo-se como uma concepção que redesenha o conceito das Cidades Criativas através de um conjunto de orientações comunitárias mais éticas, inclusivas e sustentáveis. O objetivo passa, sem mais, por promover uma espécie de humanismo tecnológico, através de políticas públicas que dêem sentido cívico e ético à revolução digital das cidades. Tudo isto, numa lógica que deve transcender os modelos de sociabilidade digital próprios das grandes empresas tecnológicas que procuram monetizar uma governação digital eficiente, orientada, apenas e obviamente, para consumidores e utilizadores, e não para cidadãos.

Assim, as Human-Centered Cities ou Cidades Centradas nas Pessoas, são a solução para a emergência digital da introdução de um humanismo tecnológico que deve capacitar o ser humano, ao mesmo tempo que lhe confere a responsabilidade de entender os dados, os algoritmos, a inteligência artificial e as máquinas, sempre, sempre ao serviço das pessoas. Tudo isto no intuito de contribuir para um impulso regulamentar que permita, democraticamente, controlar a tecnologia e assegurar a emancipação do ser humano face a esta.
As maiores e mais relevantes teorias sobre o desenvolvimento das cidades afirmam taxativamente, hoje, que ou a revolução digital se humaniza ou não será bem sucedida. É, aliás, hoje comummente aceite a ideia de que ou a tecnologia se centra no serviço à humanidade e mantém o homem, as pessoas, como centro normativo de interpretação do mundo, ou correrá o risco de esmagar a dignidade humana, mergulhando o mundo em novos perímetros de vigilância, desigualdade e alienação.

A verdade é que esta emergência digital será, seguramente, testada nas cidades, conquanto que estas se apresentam, por excelência, como os laboratórios vivos em que muitas das mais modernas tecnologias são e serão testadas. Será no seio das cidades que todas as possibilidades, enquadradas no devir inexorável da globalização, serão demonstradas. É, por isso, necessário encontrar na tecnologia as opções que nos permitam melhorar e progredir, ao mesmo tempo que procuramos minorar e até expurgar todas aquelas que podem prejudicar o futuro e contribuir para mergulhar as sociedades modernas em pesadelos verdadeiramente distópicos.
Bruno Latour, Francês, antropólogo, sociólogo e filósofo e, indiscutivelmente, um dos mais eminentes pensadores contemporâneos, questiona na sua última obra - Donde Aterrizar - onde irá aterrar a globalização, respondendo, mais à frente e na mesma obra, que a mesma acaba, sempre, por aterrar nas cidades.

A opinião de Latour é, também, secundada pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Ademais, tudo isto se torna mais claro quando percebemos que as cidades, apesar de ocuparem apenas 2% da superfície do planeta, concentram mais de metade da população mundial, consomem 75% da energia produzida e concentram 80% do PIB do global. É por isso, aliás, que as Nações Unidas reivindicam uma aliança entre as cidades e a tecnologia, especialmente porque se prevê que em 2050 as cidades acomodem 70% da população mundial e 85% já a partir de 2100. Este contexto de explosão urbana, resultará, inevitavelmente, numa geopolítica demográfica da sustentabilidade que só pode ser abordada através do casamento, virtuoso, equilibrado e sustentável, com a tecnologia.

É neste contexto que as Cidades Centradas nas Pessoas se podem converter numa estratégia global, promovida pela Europa e, quiçá, fruto de uma herança comum com muitas afinidades históricas e culturais, transferível para a América Latina e para alguns países Africanos. Tudo isto ancorado numa visão política que salvaguarde a dignidade humana através de um pacto entre a humanidade e a tecnologia que, como um dia disse “Hans Jonas”, nos garanta “o direito a uma vida autêntica em termos humanos”. Um pacto que promova uma espécie de paideia digital que não abdica de um conjunto de experiências cívicas capazes de libertar os seres humanos das dimensões mais perversas da tecnologia.
Cidades Centradas nas Pessoas podem, por tudo isto, ser a resposta para o começo de uma nova civilização digital que modifique, de uma vez por todas, os eixos prescritivos do capitalismo vigilante que durante muitos anos modelou as Cidades Criativas, com os erros graves que, nomeadamente do ponto de vista da sustentabilidade, daí resultaram.

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