Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Cidade reflecte a sociedade que somos

Greve

Ideias

2018-06-18 às 06h00

Filipe Fontes

O artigo último terminou com “a visibilização e importância de uma cidade não se faz por ser a melhor mas sim pelo seu significado e conforto da mesma relativamente às pessoas. Como disse Luís Vassalo Rosa, a cidade é o espelho físico da sociedade que somos”.
Por isto, sobretudo por esta natureza do que é ser cidade, importa regressar à essência do seu significado e, assim, alcançar o que, para esta, é mais determinante e fundamental, numa palavra, indispensável.
Tal como mais do que uma vez escrito nestas páginas, e de forma simplificada, cidade é a reunião de um conjunto alargado de seres humanos que, sobre um “naco” de território, se relacionam em nome do respectivo interesse e necessidade (tornando-se pessoas), transformando fisicamente o mesmo “naco” territorial de modo a melhor encontrar as condições urbanas para tal relação. No fundo, é a sempre constante e omnipresente tríade do território enquanto suporte físico ( e que origina o urbano), as pessoas enquanto razão de ser e existir (e que formam a comunidade) e a relação enquanto produto final e visível (com expressão maior na economia e cultura).
Porque assim é, falar das pessoas é incontornável e inevitável. Porque, afinal, tal é o mesmo do que falar sobre cidade já que, não existindo as primeiras (pessoas), a segunda (cidade) não emergiria.

As pessoas, enquanto seres em relação com outros seres e enquanto indivíduos que se plasmam em comunidade, são a essência das cidades e, como tal, devem estar no centro da actuação de quem as dirige e administra, devem ser continuamente razão de preocupação e desafio.
Porque assim é, uma cidade deve procurar responder, quantitativa e qualitativamente, a esta realidade, ajudando a fixar pessoas, transformando-as em efectivos residentes, atraindo pessoas na forma de actores urbanos temporários (turistas, artistas em residência, …), num processo de densidade e peso demográfico que a legitima e potencia a captar e reclamar serviços e bens, que responda qualitativamente às suas necessidades e expectativas.
E esta parece ser a regra básica de uma cidade: uma cidade precisa de pessoas para existir, precisa de mais pessoas para se densificar e gerar serviços, precisa ainda de mais pessoas para produzir bens e produtos, sejam eles económicos, sociais, culturais, turísticos, entre outros.

Resultante desta regra base, surge como incontornável a importância da demografia numa cidade (e, num seguindo momento, a sua própria qualidade: camadas etárias, formação, nível cultural, …). Hoje, uma cidade – que se quer (como recorrentemente se regista) compe- titiva e atractiva – tem de ser capaz de fixar e atrair pessoas, oferecendo razões para estas ficarem, dormirem, consumirem, viverem, votarem,… num sinal evidente de vida e dinamismo, de presente e futuro.
Natural e paralelamente, importa qualificar esta fixação e atracção de pessoas que, acredita-se, será atingido muito por força da coerência e qualidade do espaço público, do conforto e acesso à habitação, da oferta e abrangência dos serviços, da produção do sentido de pertença e afectividade das pessoas com o espaço que habitam.

Porque assim é, hoje surgem emergentes e centrais temas como habitação e mobilidade, cultura e emprego, alterações climáticas e coesão. Não porque sejam “moda” ou antes desconhecidos. Simplesmente, porque são temas que, directamente, respondem ao ser cidade, ou seja, respondem às necessidades e expectativas das pessoas.
Daí ser fundamental recentrar a projecção das cidades e voltar à sua essência. Porque uma cidade não será contemporânea, dinâmica e atractiva apenas porque o seu espaço público é festivo ou o seu produto comunicacional fértil. Apenas reunirá essas qualidades se conseguir responder às necessidades e expectativas das pessoas, repete-se, habitação confortável e acessível, mobilidade racional e eficiente, cultura e coesão num produto final que enraíza as pessoas ao local que habitam (evitando que se tornem migrantes na expectativa de um lugar melhor para viver).

Citando livremente Mia Couto “a casa não é de quem a constrói mas sim de quem nela mora!”. E só assim é que será possível a uma cidade responder aos problemas de gentrificação, desertificação, de desigualdade e baixa densidade (e intensidade). Só assim será possível a uma cidade não perder população, antes ganhar peso demográfico e importância institucional, capacidade de atracção e fixação. Enfim, de ser cidade, reunindo sobre um “naco” territorial um grupo de seres humanos que se relacionam (transformando-se em pessoas) por necessidade e vontade. Nunca por espectáculo ou notoriedade…
(continua)

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