Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Chegaremos lá vivos?!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2012-12-01 às 06h00

Carlos Pires

Em entrevista à TVI, esta semana, o primeiro-ministro, a propósito do aumento de impostos e corte de pensões apontados para 2013, referiu: “chegaremos lá vivos, mas vai custar muito. Nunca me ouviram dizer que vai ser pera doce….”. De resto, ainda, e nas suas palavras, a coligação está a cumprir uma 'missão histórica', com a consciência de que 'todas as políticas de ajustamento com austeridade trazem custos, riscos e muito sofrimento e dor social”.
Começo a achar que alguém deve urgentemente transmitir a Passos Coelho - o campeão dos discursos e entrevistas - que era preferível que se mantenha recatado, a estudar os dossiers importantes para o país, rodeado ou não de técnicos capazes e da equipa governativa, assegurando dessa forma a devida preparação para o (difícil) cargo de que está investido.
Na verdade, as afirmações (e o tom!) de Passos Coelho provocaram-me incredulidade e recordes de elevada preocupação. A entrevista revelou fragilidades e, no essencial, não permitiu que ouvíssemos algo de novo da boca do primeiro-ministro, limitando-se este a retratar a realidade, por todos nós já sobeja e penosamente conhecida, mas relativamente à qual o chefe do executivo parece resignado e aparentemente sem soluções. E esta é a primeira crítica que lhe aponto. Sem prejuízo do dom da palavra, que o tem, falta-lhe carisma, falta-lhe sensibilidade para gerar uma empatia e confiança mobilizadoras da sociedade civil. Não há alternativa, diz sistematicamente o primeiro-ministro. Isto irrita quem escuta, desafia quem tem de obedecer, provoca e magoa os que mais sofrem.
Apenas uma promessa efetuou - “chegaremos lá vivos”!; expressão que reputo de profundo mau gosto. O que pretende ele dizer? Que a única preocupação que tem é que nos mantenhamos vivos mesmo que “a pão e água”, mesmo que com a sociedade como nós a conhecemos até hoje totalmente colapsada??? O cenário que parece ter em mente revela-se apocalíptico, como saído de um filme de guerra… Não, não aceito um discurso conformista desta natureza. Recuso que o meu país tenha a dirigi-lo um homem que se basta com tão pouco, para quem o conforto e a qualidade de vida dos portugueses, mormente as conquistas civilizacionais que foram obtidas, não parecem importar manter, mas tão só e somente o “estar vivo”…
O segundo conjunto de críticas que dirijo prende-se com o facto de o Governo pretender seguir o caminho da austeridade com uma convicção que os resultados das políticas da troika (e do ministro das Finanças!) estão muito longe de permitir. Afinal, o desemprego acaba de atingir a mais elevada taxa de sempre - subiu para 16,3% em outubro, acima dos 16,2% de setembro, sendo a terceira mais alta entre os Estados-membros, segundo dados divulgados ontem pelo Eurostat -, a criação da riqueza registou a maior quebra dos últimos três anos e o índice de confiança caiu para mínimos históricos.
Parece-me que o problema deste Governo não é o ser adepto da austeridade, mas antes o de ser refém da austeridade, refém da própria estratégia, o que é revelador de inabilidade politica e irresponsabilidade. O problema deste Governo é estar convencido que um só caminho resolve todos os problemas. Portugal precisa de mais tempo para fazer o ajustamento projetado. Esta é uma conclusão óbvia. Não se muda uma economia frágil, dependente do Estado, minada por interesses, num abrir e fechar de olhos.
Senhor primeiro-ministro, deixe por favor esse discurso messânico. Chega! Já não se tolera! Com o país em cacos, um desemprego fortíssimo, como vamos resistir e iniciar assim um novo ano que pretendem transformar numa nova maratona? Peça a um maratonista que arranque para uma segunda maratona assim que acabe a primeira e verá o que ele lhe responde.
Os portugueses, os homens em geral, precisam de esperança para viverem. Sem ela, desistem, murcham e morrem. A crise que o meu país vive é a ansiedade e incerteza associadas à maior destruição de expetativas de que temos memória. E uma sociedade sem ambição, sem expetativas, não permanece. Morre.

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