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COVID-19: Quem testar? Que testes usar?

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Ideias

2020-05-22 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Com o início do desconfinamento, parece que veio o sol também. Tudo parece possível neste regresso a um “novo normal”, ainda habitado por medos e insegurança. Com a esperança colocada em modo de esquecer, planeia-se o regresso ao mercado de trabalho hesitando entre o querer e o não querer. As escolas voltaram às aulas presenciais rodeadas de normas e cuidados – excelentes intenções praticadas portas dentro, mas ainda ontem os vi, bandos de jovens acumulavam-se portas fora, nas imediações retiravam de imediato as máscaras, bebiam a alegria de estarem juntos de novo, esquecendo o contágio invisível e a responsabilidade individual.

No fundo, é o que todos queremos – esquecer e reencontrar a nossa vida, o toque, o café com um bolo desfrutando o sol, o beijo, o calor. Cerca de 5 milhões de casos em todo o mundo, oficialmente declarados. Provavelmente foram muitos mais, porque os testes, por todo o mundo, incidiram fundamentalmente sobre os casos graves. Mais de 328.000 mortos. E os avisos sobre uma potencial segunda vaga repetem-se, com base no comportamento de pandemias ao longo da história; não é uma questão de “se”, é uma questão de “quando”, dizem. Por outro lado, apesar de fortes investimentos em I&D e dos fortíssimos incentivos motivacionais, o que se sabe ainda sobre o vírus é insuficiente para o deter de forma eficaz.

Descobrimos de novo que o sistema de bem-estar social criado de forma vagarosa a partir de finais do séc. XIX, com elementos e experiências diversas, e implementado nos pós-guerra por exemplo na Europa Ocidental, na Austrália ou no Canadá, garantido fundamentalmente pelos governos a partir de receitas fiscais, é a rede que tem segurado as pontas da pandemia. A par certamente de instituições da sociedade civil. Um sistema nacional de saúde consistente, permitindo a prestação de cuidados de cuidados de saúde, independentemente das condições económicas e sociais dos cidadãos. Um investimento socialmente desejável, prioritário, ainda que muito complexo porque as sociedades evoluem muito depressa, os problemas e os desafios crescem em complexidade – e em custos financeiros. Que a segurança social permitindo pagar subsídios de desemprego ou retribuições apoiando quem está em lay-off , a quem subsistia de formas eventuais ou precárias de emprego ou ainda de empreendedorismo individual , a trabalhadores e empresas em setores particularmente afetados pela alteração do comportamento social induzido pela pandemia – turismo, restauração, entre outros – permite uma rede mínima de suporte que é fundamental para a sobrevivência das pessoas e das sociedades.

As histórias terríveis da Grande Depressão nos anos trinta, das deslocações em massa de pessoas pelos Estados Unidos procurando garantir a sua sobrevivência pelos caminhos da fome, retratadas por Steinbeck nas Vinhas da Ira, são no fundo um passado nas sociedades mais afluentes onde um sistema de bem-estar social existe. O bem comum não é fácil de definir, como Tirole diz num dos seus livros, bem como de estabelecer limites; mas a escolha que fazemos da sociedade onde queremos que os nossos filhos e netos venham a viver assenta no reconhecimento de que estado e mercado são complementares, dependentes entre si, e onde a solidariedade tem que ter um valor real.

A relação entre saúde e economia é conhecida e comprovada por inúmeros estudos. O investimento e o emprego no setor da saúde estão associados ao desempenho de todo o sistema económico, aos quadros regulatórios, às políticas sociais e de trabalho, à qualidade e sustentabilidade das finanças públicas, por aí fora. Não é uma ilha isolada. Mas é certo também que países sem sistemas de saúde públicos, com condições mais frágeis do ponto de vista da saúde ou da educação, são também países onde o crescimento económico sustentado é mais difícil de conseguir.

Na década de 40, um grande economista austríaco chamado Joseph Schumpeter publicou um livro onde defendia um conceito que se tornou famoso – a destruição criativa. Basicamente, argumentava que as inovações são fundamentais para um crescimento económico sustentado a longo prazo. Novos produtos, novas formas de produzir, novos tipos de organização da produção e do trabalho, bem como o acesso a novos mercados ou fontes de matéria prima tornam dinâmicos os mercados e geram condições para um novo crescimento. As crises potenciam novas oportunidades. Em Portugal, como aliás um pouco por todo o mundo, temos sabido de histórias de empresas que se reinventaram, que se adaptaram rapidamente a novas realidades do mercado e a ovos perfis dos consumidores. Milhões de trabalhadores adaptaram-se ao teletrabalho, alunos e professores ao ensino on-line.

Muitos têm-se entretido em identificar potenciais períodos de duração e recuperação da economia, passado o choque inicial. É apenas especulativo – ninguém sabe ao certo, quando e como virá uma nova vaga do vírus, se haverá ou não, então, uma vacina ou um remédio milagroso, se o vírus, que é manhoso aparecerá com uma nova mutação. Todas estas variáveis se transformarão em cenários alternativos. Mas o futuro já mudou. As novas tecnologias assumiram um papel ainda mais relevante, e o quadro central da especialização da indústria portuguesa deixou de estar definitivamente, a meu ver, no paradigma de custos baixos, baixa qualificação profissional e baixos salários.

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