Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Celebrando a Vida...

O misterioso desaparecimento de Hipólito Alvarenga

Ideias

2016-10-31 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Por esta altura, reacertamos os nossos percursos quotidianos, fazendo-os cruzar com o cemitério. Os dias de todos os santos e de finados impõem-nos uma desaceleração para pensar mais devagar em quem partiu. Essas pessoas nunca fogem do nosso pensamento. Permanecem sempre em nós, muitas vezes de forma silenciosa para não perturbar as nossas rotinas, mas ressurgindo vulcanicamente em momentos mais festivos ou mais disruptivos, ou seja, quando sentimos necessidade de nos abeirarmos de quem mais gostamos.

Durante muitos anos, a cada primeiro de novembro, ia ao cemitério por respeito a algumas pessoas que deixei de ver e àquelas que aqui ficaram e que precisam de um abraço mais apertado em certos dias. A partir de certa altura, comecei a ir lá por amor. Porque conheci uma dor maior que nunca desaparece e que, aos poucos, vai fazendo parte da nossa vida, normalizando-se de certa forma. Já me tinham falado dessa dor, mas eu só a percebi bem quando a senti. E, desde aí, comecei a olhar de outra forma para quem a carrega, por vezes de forma bem pesada.

Ir ao cemitério não me traz propriamente tranquilidade, mas abre-me vias mais largas para aprender a conviver, e a aceitar, a partida daqueles que amo. Não é fácil. É um caminho que se faz, sempre a velocidades distintas. Há dias que sentimos mais força para continuar, outros em que somos tentados a voltar para trás ou a sentarmo-nos na berma da estrada à procura de uma boleia que, nessas alturas, tarda em chegar. Todos os que vivem o luto conhecem bem esses percursos ziguezagueantes...

O acaso haveria este fim-de-semana de me colocar em cerimónias fúnebres da mãe de um amigo. Na eucaristia, recordou-se a frase de uma das netas mais pequenas. “A partir de hoje há mais uma Estrela no céu”, disse a pequenina. Ouvi isso com uma emoção contida, porque também eu guardo no íntimo as minhas Estrelas que todos os dias estão bem lá em cima. No Céu. Em vigília. A iluminar. Regressaram a Casa. E tornam-se mais visíveis, quando escurece. Todos os dias, lá no Céu, as (minhas) Estrelas lá estão a testemunhar vidas. Que agora adquirem outra forma. Nem sempre sou capaz de entender isto na perfeição, porque, às vezes, me sinto incapaz de olhar para cima… Por razões várias.

Amanhã, quando for ao cemitério, vou, como de costume, enternecer-me com as flores que ali estão simbolizando a nossa esperança de eternidade, mas é sempre nas velas que mais me concentro. À medida que o dia se for escoando, lá ganham força centenas de luzes cintilantes.... É esse brilho, que rasga o escuro, que reflete uma Luz muito, muito especial.

De regresso a casa, podemos olhar mais o céu. Devagar. Estou certa de que muitos de nós vão descobrir aí as suas Estrelas. Elas ali estarão a brilhar. Pela minha parte, conforta-me pensar que certas Estrelas sabem que são (muito) especiais para mim. Hoje estarão lá à minha espera, amanhã também, depois de amanhã… é deles que eu retiro grande parte da Vida que tenho. E estes dias de novembro têm essa magia. A de recordar-me que é a Vida que sempre celebramos. Com outras reconfigurações.

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