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Braga, sexta-feira

Cegueira bonita

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Conta o Leitor

2018-07-11 às 06h00

Escritor

Autora: Venusa Magro Conceição

Quando era pequena a minha mãe sempre me disse, “és uma menina especial, podes criar o teu mundo com a tua imaginação”. Mas eu sempre me queixava, “Mamã, quero tanto poder ver o mundo, porquê eu? Porque tive de nascer num mundo escuro?”. Claro que ela sempre me respondia numa voz suave e doce, “Agradece a deus por teres os teus outros sentidos para te ajudarem, agradece por não veres a crueldade”, com isto calava-me, não percebia o que ela queria dizer com crueldade, tinha apenas sete anos e não me lembrava mais do mundo quando ainda tinha a minha visão.
Acabara de fazer dez anos quando recebi o meu fiel companheiro, um São Bernardo, ainda apenas um filhote pelo que a minha mãe dissera. “Gostava tanto de poder te ver, de ver as tuas cores”, disse eu para o São Bernardo, chamado até hoje de Mozart, claro que no meu coração, aquelas palavras não se dirigiam apenas a Mozart mas também à minha mãe e ao meu pai...
Lembro me também que aos meus doze anos, comecei a chorar porque a minha única amiga dissera-me que o mundo era a coisa mais bonita que se podia ver (para mim, pensei que ela o tivesse dito sem maldade), fora sem dúvida a primeira vez que senti o meu rosto tão húmido e tão quente. A minha mãe, gentil como sempre, envolveu me nos seus braços e disse-me “Essas lágrimas são a prova de que os teus olhos ainda estão vivos, um dia minha filha, dar me-às razão”, ela abraçou-me com mais força e senti como se ela estivesse a sorrir, com algumas lágrimas nos olhos.

Tenho eu hoje, dezoito anos, moro agora com o meu pai, único familiar próximo, claro que o meu amigo, Mozart, continua aqui, um pouco velho (pelo contar dos anos) mas vivo. A minha mãe...morrera aos meus treze anos, ninguém soube que ela estava doente, como poderia uma cega saber que ela tinha uma doença?
Culpo-me pela morte dela, culpo a minha visão, se eu não fosse cega, poderia ver se ela estava a piorar, poderia tê-la ajudado. O meu pai, eu não o culpo, ele estava fora do país, em trabalho.
Já me decidira, vou voltar a recuperar a minha visão, vou fazer a tão arriscada operação de transplante de olhos, (neste momento, coloquei-me de joelhos e rezei) abençoada seja a pessoa que me der a sua visão...
A este momento, já sentia lágrimas quentes a escorrer no meu rosto, Mozart veio ter comigo e lambeu-me a bochecha como a dizer para parar de chorar.
Mas já não eram lágrimas de tristeza mas sim felicidade. Sentir aquelas lágrimas era saber que deus não magoou por completo os meus olhos.

A operação fora finalizada. Tudo com sucesso.
As primeiras semanas foram complicadas, o médico dizia sempre, “Estás com dificuldades em aceitar a luz, é como se fosses feita para viver no escuro”, depois ria-se, como se fosse a anedota mais engraçada à face da Terra. O bom nisto era que finalmente vi cores, desfocadas, mas vi...
Passaram-se mais alguns dias e a minha visão estava boa, não tão boa como a dos outros seres humanos, pelo que o médico me disse, mas já conseguia ver o mundo, meu deus, como o mundo era bonito, como o Mozart era colorido, o meu pai, as pessoas, os animais, tudo tão bonito e colorido, mas... tudo o que é bonito acaba por desaparecer...
As más notícias começaram por aparecer, assassinatos, terrorismo, guerra, violência, destruição e sangue... uma cor tão bonita e tão cruel...
Porque iria o ser humano se magoar? Lutar contra a mesma humanidade está errado!
Pensei para mim, “Oh minha mãe, como tinhas razão, perdoa-me... perdoa o meu egoísmo de querer ver e de querer ser como os outros! Quero o meu mundo escuro, não quero mais este mundo onde também não te posso ver”, as minhas lágrimas caiam, e desta vez de pura tristeza... Tristeza por ver um mundo que não queria ver, um mundo que não devia existir. O ser humano devia cuidar de si e dos outros e não destruir ambos.
Pobres animais, pobres crianças, o que iram pensar dos adultos? O que sentem os animais ao verem a sua casa a ser destruida? Dor, tanta dor neste mundo...
Percebi então que as palavras de minha mãe eram apenas para me ajudar e especialmente, avisar sobre o mundo que ela via, o mundo que ela era obrigada a ver e que deus, me dera a oportunidade de não ver...
Oh abençoada cegueira bonita, porque fui eu te deixar....

Passara-se um ano, a minha visão estava fraca, mais desfocada e escura a cada dia, meu pai pedia-me constantemente para ver um médico, um dia então, farta de tanta insistência, decidi ir ao médico... Oh caro leitor, tais palavras nunca me deixaram mais feliz! Eis o que ele me disse, “Segundo o diagnóstico das análises, a tua doença não te permite ter uma visão por mais tempo, lamento, mas o teu destino é ficar para sempre no escuro...”.
Meu pai suplicava ao médico para me ajudar mas eu, eu simplesmente fechei os olhos e sorri, podia voltar a criar o meu mundo, um mundo sem crueldade, sem cores cruéis, um mundo só meu e que nunca iria abandonar, onde a minha mãe estava viva, onde toda a gente era feliz... onde eu era feliz.

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