Correio do Minho

Braga,

Cavaco Silva e a crise

A vida não é um cliché

Ideias

2011-10-18 às 06h00

Jorge Cruz

Os políticos “são incapazes de estabelecer regras para governar esta situação, que é intolerável” e da qual “são vítimas os mais débeis, os mais fracos e os mais pobres”.
A constatação da trágica realidade que vivemos foi feita pelo bispo de Leiria-Fátima na véspera da peregrinação da passada quinta-feira e as suas palavras podem e devem ser entendidas como mais um pungente alerta às consciências.

Aliás, D. António Marto não hesitou mesmo em manifestar compreensão com “alguma agitação” social que venha a ocorrer, sobretudo da parte dos mais penalizados, considerando que essa situação deverá “suscitar a exigência de crescimento em solidariedade”, tanto mais que “estamos todos na mesma barca, corremos o risco de irmos todos ao fundo”. Também por essa razão o prelado não deixou de prevenir para a premente necessidade de regular os mecanismos financeiros para enfrentar esta triste “face de uma globalização completamente desregulada, desgovernada”.

Curiosamente, também na semana passada o presidente da República aproveitou uma conferência em Itália para criticar aquilo que considerou ser a “deriva intergovernamental que está a contaminar o funcionamento” da União Europeia, qualificando-a como “caminho errado e perigoso”.

Confesso que o teor da extensa intervenção de Cavaco Silva em Florença me causou surpresa. Em primeiro lugar, por falar da situação interna do nosso país no estrangeiro; depois, por criticar severamente alguns dos principais dirigentes políticos europeus. Convenhamos que em Cavaco Silva nenhuma das situações é normal. No entanto, estritamente sob o ponto de vista de conteúdo, existe uma enorme razoabilidade nas suas palavras.

De facto, ao considerar “inadmissível o ‘happening’ quotidiano de discursos divergentes” de dirigentes europeus e criticar os sucessivos atrasos na execução das decisões, o presidente português apenas está a engrossar as vozes que desde há muito se têm levantado em protesto contra tais situações.

Do mesmo modo, ao afirmar que “vamos constatando a emergência de um directório, não reconhecido nem mandatado, que se sobrepõe às instituições comunitárias e limita a sua margem de manobra”, Cavaco simplesmente reforça as denúncias que sobre esta matéria têm surgido de diversos quadrantes políticos.

Dizer que “este é um caminho errado e perigoso” e acrescentar que é “errado porque ineficaz” e que a sua perigosidade decorre de ser “gerador de desconfianças e incertezas que minam o espírito da União” também não é nada que não tenha já sido dito por outros actores políticos. Ou seja, as suas considerações e os seus alertas, embora certeiros, só pecam por tardios.

Em todo o caso fica-lhe bem dizer que “a União Europeia deu guarida a uma crescente especulação sobre a zona Euro, alimentando as incertezas sobre o pró-prio futuro da moeda única”. E observar que tal sucedeu enquanto se encontrava “enredada numa retórica política de recriminações mútuas, evitando reconhecer a responsabilidade partilhada, ignorando a evidência dos riscos de contágio, hesitando na solidariedade, oscilando nos instrumentos a usar e promovendo uma deriva intergovernamental”.

Mas verdadeiras novidades desta intervenção de Cavaco Silva perante uma plateia de notáveis no Instituto Universitário Europeu foi o reconhecimento, embora retardado, de que a crise teve origem externa e a assumpção de uma postura crítica, que não lhe conhecíamos, e que, de resto, até contrasta com posições por si assumidas anteriormente. Quem não se recorda, por exemplo, das admoestações públicas do presidente àqueles que em devido tempo criticaram os responsáveis pelos ataques à nossa economia?

Proclamar que a orientação política cabe ao Conselho Europeu e não a um directório de alguns países, leia-se à Alemanha e a França, e que as decisões devem ser tomadas pelo Conselho de Ministros é afirmar o óbvio. Ou seja, sobraram generalidades e escassearam as denúncias concretas. Ficou por dizer, explicitamente, que a senhora Merkl e o senhor Sarkozy não podem impor a sua vontade. Faltou recordar que a Europa é um projecto comum, com órgãos próprios, e que também por essa razão aqueles dois dirigentes não têm o direito de usurpar funções e extravasar as suas competências como o têm feito nos últimos tempos.

Cavaco ainda relembrou que o saneamento das finanças tem de ser acompanhado por uma política de recuperação económica, com crescimento efectivo e criação de emprego, sob pena de termos “um resultado socialmente insuportável”. Mas lamentavelmente esqueceu-se de que essas políticas não estão a ser aplicadas no seu próprio país. Ou seja, sob esse ponto de vista adoptou a política da aves-truz.

Porque declarar-se “preocupado mas confiante”, como o fez, e garantir que Portugal honrará os compromissos assumidos, restabelecerá o equilíbrio das finanças públicas e levará por diante as reformas estruturais indispensáveis parece-me insuficiente face à difícil situação que o país atravessa. As suas palavras correspondem mais a um mero plano de intenções para consumo externo do que propriamente à orientação política que se espera de um chefe de Estado em momentos penosos.

O que é pena porque além do mais perde mais uma oportunidade política para mobilizar o país e os cidadãos. Daqui a uma semana, quando se realizar o Conselho de Estado que o presidente convocou com um único ponto na ordem de trabalhos, “Portugal no contexto da crise da Zona Euro”, saberemos qual a sua posição.

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