Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Cavaco reincidente

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2011-11-01 às 06h00

Jorge Cruz

A XXI Cimeira Ibero-Americana tem todas as condições para ficar na memória dos portugueses e, nessa medida, ser recordada transformando-se em tema de conversas, embora não pelos melhores motivos.

A presença portuguesa nesta reunião de dois dias na cidade de Assunção, no Paraguai, fez-se sentir ao mais alto nível, através das presenças do presidente da República, do Primeiro-ministro e do ministro dos Negócios Estrangeiros. Não restarão, portanto, quaisquer dúvidas quanto à relevância que Portugal atribuiu a esta cimeira de governantes de países da América Latina, de Espanha, de Andorra e, obviamente, de Portugal.

Não pretendo colocar minimamente em causa a importância que foi dada ao conclave, e que teve a natural correspondência na deslocação aquele país latino-americano de Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas. Mesmo em alturas de grave crise económica, quando é imperioso proceder a grandes cortes na despesa pública, subsistirão sempre acções que não podem deixar de ser desenvolvidas e até incrementadas e acredito que a participação activa num areópago como são as cimeiras ibero-americanas, deve continuar a ser uma das prioridades da política externa portuguesa, até pelos benefícios que daí podem advir para Portugal.

Feito este esclarecimento prévio, fundamental para se perceber que acredito nas virtualidades destes encontros, não posso deixar de levantar uma ou outra questão à volta desta cimeira.
A primeira prende-se, naturalmente e uma vez mais, com a enorme comitiva que Cavaco Silva decidiu levar ao Paraguai, uma comitiva que contrasta flagrantemente com a do Primeiro-ministro.

De facto, e conforme foi noticiado, enquanto Passos Coelho levou consigo apenas quatro pessoas, segurança já incluída, o presidente da República fez-se acompanhar de um séquito de 23 pessoas, entre as quais médico, mordomo e dois fotógrafos!

É certo que em relação à viagem aos Açores, em Setembro passado, Cavaco Silva diminuiu em sete unidades o número de pessoas que o acompanhou, mas também não é menos verdadeiro que existe uma diferença abissal entre os preços das viagens para os dois destinos. Para melhor compreensão bastará, talvez, dizer que a viagem ao Paraguai pode custar, por pessoa, entre quatro e seis mil euros em executiva e mil e quinhentos a dois mil em económica.

O curioso de tudo isto, o que verdadeiramente causa espanto e até apreensão, é que o responsável por tão extenso cortejo é precisamente a mesma pessoa que declarou há tempos, com o ar solene que lhe é reconhecido, que “ninguém está imune aos sacrifícios”. Ou seja, pelos vistos Cavaco Silva não aprendeu nada com toda a controvérsia à volta da triste história dos Açores e, na primeira oportunidade, até reincidiu.

Todos nos recordamos das recentes intervenções do presidente da República sobre os cortes propostos pelo governo em sede de Orçamento de Estado para 2012. Cavaco Silva falou, e bem, da equidade com que devem ser tratados todos os portugueses, principalmente em momentos de grandes dificuldades. Ora, ao por em prática e dar força ao velho ditado “olha para o que eu digo e não para o que eu faço” o presidente da República deu uma nova machadada na credibilidade dos políticos e das instituições e contribuiu para desmotivar todos aqueles que ainda acreditam na imperiosa necessidade de adoptar medidas restritivas.

Para além das funções constitucionais que lhe estão cometidas, o presidente da República deve ser um exemplo, por palavras e principalmente por actos, para todos os portugueses. E num momento de tão grandes dificuldades como este que atravessamos, quando somos diariamente obrigados a aceitar cortes “colossais” e assistimos com alguma incredulidade e revolta, embora ainda contida, ao empobrecimento das pessoas e do país, nem o chamado “pai do monstro” pode ser dispensado dos sacrifícios.

Outra questão que a cimeira do Paraguai coloca tem a ver com algumas declarações de Pedro Passos Coelho. Neste particular, a estranheza decorre principalmente do facto de ter falado de questões internas no estrangeiro e de ter finalmente reconhecido expressamente a origem e a idade da presente crise.

“Em Novembro nós iremos fazer uma avaliação (…) e iremos propor alguns ajustamentos ao nosso programa de assistência económica e financeira”, afirmou o Primeiro-ministro em Assunção, esclarecendo que “isso significa que nós estamos à procura de encontrar soluções de maior flexibilidade que, no essencial, nos permitam garantir um mais adequado financiamento à economia”.

Não se sabe ao certo que tipo de renegociação pretende Passos Coelho fazer com a “troika” até porque, além de fazer o anúncio fora de Portugal, o Primeiro-ministro não terá abordado antecipadamente o assunto com a oposição. O que se sabe é que o jornal Expresso noticiou este fim-de-semana, e não houve qualquer desmentido, que Portugal precisa de mais 25 mil milhões de euros até 2013.

Também de valorizar, no campo das surpresas, será a posição agora expressa em Assunção de que a actual crise “não é apenas europeia, é uma crise mundial cuja origem remonta à década passada” e que, por essa razão, “a todos convoca”, na Europa, na América e nos restantes continentes. O que contrasta com antigas posições do líder do PSD.

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